Todo mundo tem alguém que nunca vai embora

Ilustração: Henn Kim — Healing is so difficult

Filipe. Filipe é um soco no estômago e um cafuné em seguida. Ou o contrário. Ou o soco e o cafuné ao mesmo tempo. Ele me faz querer a morte, ele me faz sentir a vida. Eu tento incessantemente esquecê-lo, mas sempre algo me faz lembrá-lo. Como fã de Clube da Luta que sou, se eu tivesse um tumor eu o chamaria de Filipe.

Outro dia encontrei o Filipe na rua. Nos olhamos fixamente para, em seguida, fingir que nunca nos conhecemos. Antes fosse. Se eu pudesse desconhecer alguém eu desconheceria o Filipe. Mas se eu pudesse conhecer alguém de novo eu conheceria o Filipe.

Outro dia eu vi o Filipe gargalhando naquela mesa de bar, acompanhado por alguém que deve ter conhecido por aí. Ele fazia aquilo de sempre: se inclinava para a pessoa, fixava os olhos e estendia a mão segurando um cigarro. Eu odeio cigarro. Odeio cheiro de cigarro, gosto de cigarro, gente que cheira a cigarro. Mas o Filipe tinha um cheiro ótimo, um gosto ótimo e eu nem ligava quando ele fumava. Ele o acendia e ficava mais longe de mim para não me incomodar. Às vezes esticava o braço para tocar meus dedos, que sempre ficavam gelados perto dele. Talvez aquele fosse o jeito dele de me dizer que se importava.

Mas eu não me importo mais. Não dou a mínima para o Filipe e quero que ele seja muito feliz bem longe de mim. Maldito! (…) Não posso negar que outro dia eu encontrei o FIlipe naquele bar onde tivemos a nossa penúltima conversa e eu só quis abraçá-lo. Ele andava do mesmo jeito, com os mesmos amigos, abrindo o mesmo sorriso e me fazendo sentir aquela mesma coisa estranha no estômago.

Eu queria que o Filipe sumisse do planeta para eu nunca mais correr o risco de revê-lo. Eu queria que o Filipe aparecesse agora dizendo que ainda gosta de mim e que sente minha falta para eu nunca mais correr o risco de perdê-lo. Eu sinto raiva do Filipe porque eu sinto falta do Filipe. Eu odeio o Filipe porque eu amo o Filipe.

(…) Filipe!
Que saco, Filipe!
Que saudade, Filipe!
(…)


Outro dia estava conversando com uma amiga e descobri que alguém também fazia ela se sentir desse jeito. O nome dele era Mateus. No fim das contas, ele era o Filipe dela.


E aí, gostou? Me deixe ficar sabendo, por favor.