Bola de papel

Penso em páginas arrancadas. O tempo todo. E você? Por exemplo: bolas de papel amassado enchendo a lixeira que fica ao lado da escrivaninha. Penso em arremessar bolinhas de papel amassado que já foram página lisas de textura e pensamento. Penso no que está escrito ali, no meio de tanta dobra feita sem cuidado, com o único cuidado de se fazer desaparecer em si mesma. E qual era o pensamento escrito, que uma vez no papel deixou de fazer sentido de existir, mas que antes existia tão intensamente que precisava deixar de ser apenas ideia para se tornar algo físico, palpável, amassável? Entende? Penso no espaço deixado pela folha rasgada em um puxão só. Penso nas folhas que a tocavam, e já não a tocam mais. Penso na simetria arrasada pela falta de quem tornava o todo, todo. Entende? Penso em páginas arrancadas uma atrás da outra, porque o pensamento não sai como foi pensado. Aí me vem a pergunta: por que arrancar fora? Por que não passar um risco e continuar na linha debaixo? O risco dói mais que uma página tirada a força?

_Dói!

_Por quê?

_Porque o risco é a lembrança da existência daquilo que nunca deveria ter existido.

_Na sua cabeça?

_Como assim?

_Agora que o papel já está rasgado, amassado e jogado na lixeira ao lado da escrivaninha. Agora você pensa que, na verdade, era melhor que nunca tivesse deixado de ser uma página em branco?

_E?

_ Você já assistiu “Efeito Borboleta”?

_Já. Que que tem?

_Você acha que é assim que funciona? Que você pode ver uma coisa acontecendo, e só depois decidir se quer que a coisa aconteça? As folhas não voltam ao caderno. O seu destino é deixar de existir. Mas nunca vai ser como se nunca tivesse existido. Você pode esquecer da nossa conversa, mas se ela te tocar, você nunca mais será o mesmo.

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