THE​ ​STREET​ ​STORE:​ ​O​ ​PROJETO​ ​QUE​ ​DOA​ ​ESPERANÇA

Paulistanos​ ​se​ ​unem​ ​para​ ​ajudar​ ​mais​ ​de​ ​mil​ ​pessoas​ ​em​ ​situação​ ​de​ ​rua


por Caroline Fernandes/colaboração-Jefferson Rodrigues

Em um mundo cada vez mais individualista, dizem por aí que a empatia é a fórmula para a transformação da sociedade. Foi sobre essa perspectiva, em um sábado chuvoso — enquanto muitos estavam enrolados na coberta, tomando um café com leite — que mais de 200 pessoas se reuniram bem cedo no centro da ‘Selva de Pedra’ para provar que todas as pessoas são importantes.

A capital paulistana recebeu, no Vale do Anhangabaú, o projeto The Street Store (“a loja de rua”). Criado em 2014 por uma agência de propaganda na cidade do Cabo, África do Sul, tem como objetivo ajudar de forma diferenciada pessoas necessitadas. No dia 19 de agosto de 2017, data marcada desde 2004 como o “Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua”, jovens e idosos se uniram para montar uma loja a céu aberto, proporcionando aos moradores a oportunidade de sentirem como se estivessem “indo às compras”.

Voluntários trabalham em Loja de Rua que recebeu mais de 3 mil doações de roupas e sapatos.

O projeto tem se espalhado pelo mundo e se repetiu 655 vezes em três anos. Depois de cinco meses arrecadando doações, além da loja, foram oferecidos diversos serviços como: corte de cabelo e barba, banho, atendimento social, orientação jurídica, vacinação de animais, distribuição de água potável, refeições etc. Tudo através de parcerias com grupos importantes como: A secretaria de Direitos Humanos, Sabesp, Instituto Muda Vidas, Cieri Rio Branco entre outros.

“Está é a quinta edição do The Street em São Paulo, mas a primeira no Vale do Anhangabaú e nós tivemos a ideia de realizar um ‘plus’ do projeto”, explicou o estudante de Relações Intencionais e idealizador da ação este ano, Alexandre Del Rei Macedo.

Projeto Uber Barber Bus em parceria com o TSS realiza cortes de barba e cabelo em moradores de rua.

Apesar da temperatura baixa e da chuva insistente no dia da ação, o clima não desanimou a equipe. Pontualmente às 10 horas da manhã o atendimento aos ‘‘clientes’’ começou, seguindo até às 17 horas. Os sorrisos estampados nos rostos dos colaboradores transformavam o dia cinza em verão. Dona Maria Freitas, aposentada de 74 anos, saiu de Diadema para participar da ação como vendedora da loja de rua. “É a primeira vez que participo de algo assim, mas sempre tive vontade, tem tantas pessoas carentes, o mínimo que podemos fazer é ajudar”, contou emocionada.

De acordo com o censo realizado em 2015 pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), só na capital paulista existem 15.905 moradores de rua. De acordo com o documento, a maioria são homens na faixa etária de 31 a 41 anos, prevalecendo nessa população os imigrantes.

Diante dos altos números, e que seguem crescendo, há quem pense que para diminuir a quantidade de pessoas em situação de rua basta inseri-las em um abrigo ou programa da prefeitura. Mas segundo Mauricio Fiore, diretor do Cebrap e avaliador do programa ‘De braços abertos’, a situação é muito mais complexa do que parece. “Precisamos entender que ir para um abrigo, não é o desejo de todos que dormem nas vias públicas, muitos veem a rua como espaço de liberdade, como espaço de refúgio, além disso as razões e reclamações variam, de estrutura física das casas à dificuldade de adaptação às regras destes locais, como não poder levar seu animal”. E complementou: “precisamos de projetos eficazes que tragam a reintegração destas pessoas na sociedade”.

Exatamente por isso, Alexandre acredita na importância de projetos como o The Street Store. “Além de doarmos roupas, estamos promovendo a inclusão social, trazendo dignidade a esse público que por vezes são invisibilizados na sociedade”, afirma.

Lúcio, morador de rua há dois anos, abraça seu cão Jonny após ter sido vacinado. (Foto:DeMacedo)

Não ter mais esperança é quase que um fator comum para essas pessoas, por isso, um gesto de caridade é capaz de transformar o dia de alguém. “Hoje eu acordei sem esperança. Orei a Deus para que ele me mostrasse algo bom nesse dia, porque eu só estava com a roupa do corpo, e Ele me mostrou vocês”, relatou Cíntia, moradora de rua há um ano.

Os cães dos moradores também tiveram cuidados especiais. Saíram do evento vacinados, com roupinhas e pacotes de ração. “Muitas vezes o animal de estimação é tudo o que essas pessoas têm. Muitos moradores perderão seus documentos, mas guardam a carteirinha de vacinação dos bichinhos”, apontou Silvia Neri, veterinária no Projeto ‘Moradores de rua e seus cachorros’.

Ao fim do evento, 1.387 pessoas foram atendidas e o sentimento de gratidão transbordava em todos. “Saio daqui renovado”, declarou Agostinho Pereira, criador do projeto Uber Barber Bus.

Para realizar uma edição do The Street, basta entrar em contato com a organização pelo site www.thestreetstore.org e se comprometer com algumas exigências. Feito isso, é só procurar meios para que a ação aconteça no dia e local que escolher.

Segundo Alexandre Macedo, o desejo agora é formar um grupo fixo para executar mais ações nesse formato, sem a necessidade de estar atrelado ao projeto internacional. Afinal, no cálculo da solidariedade, o lucro é recíproco.

Acompanhe o vídeo da ação:

Edição de vídeo: Victor Um

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