Faixa 666.

Bip-bip-bip. Com cara de cansaço Marcela despertou. O relógio marcava 3 horas da manhã. Confusa, marcara o despertador para 4 horas mais tarde. Fechou os olhos e tentou dormir novamente, tentativa em vão, o sono já fugira. Ainda com os olhos cheios de remela, desceu as escadas em busca de um copo d’agua.

Julia, a caçula da família, estava imóvel em frente ao rádio na sala da estar. Marcela chamou sua irmãzinha.

- Jú?! Julia?! Ela não disse nada, continuou parada quase como uma estátua marmorizada. “Está sonambula”, pensara Marcela. Há dois meses sua irmãzinha começou a apresentar sintomas de sonambulismo.

- Volte a dormir! Marcela disse ao colocar Júlia na cama.

- Mas ele quer ser meu amigo… Júlia, ainda com os olhos fechados e com a voz engasgada, retrucou.

- Já está tarde, amanhã você tem mais tempo, boa noite. Marcela já saindo do quarto acalmou sua irmã.

Bip-bip-bip. 7 horas da manhã. No caminho da faculdade Marcela comentou com sua mãe sobre a noite passada.

- Mãe, a Jú teve mais uma crise de sonambulismo essa noite e de novo estava plantada na frente daquele rádio.

A mãe de Marcela não deu muita importância para o caso e murmurou qualquer coisa que Marcela não pode entender.

Ao chegar na faculdade comentou com alguns amigos sobre o mesmo assunto. Pedro, seu melhor amigo, contara como um tio sofria de sonambulismo pois um espírito o acordava durante as noites. Marcela não deu bola e achou que Pedro estava fazendo mais uma de suas piadinhas sem graça, afinal, ela não acreditava tanto em Deus quanto no Diabo.

Dias se passaram e as crises de Júlia se intensificaram. E por incrível que pareça, Marcela não conseguia tirar aquela história mal contada que Pedro havia dito naquela manhã.

Marcela abriu os olhos e viu o relógio marcar 3 da manhã. Dessa vez o que a fez acordar foi um alarme do carro que estava parado na rua. Uma música infantil estava vindo da sala, pensou que sua irmã estava sonâmbula. Mas ao descer as escadas não encontrou ninguém, o que fez com que Marcela soltasse um suspiro de alívio. Sem pensar muito, acabou desligando o rádio e fazendo o caminho de volta para o quarto.

Quando pisou no segundo degrau a música começou a tocar novamente. Confusa e assustada, voltou correndo e sem querer apertou o botão reverse ao invés de desligar. Foi quando a voz feminina, doce, calma e alegre se fez em uma voz masculina, rouca e tenebrosa. O coração de Marcela palpitava fortemente e suas pernas tremiam.

- Você quer ser minha amiga? A voz rouca perguntou suavemente deixando-a perplexa.

Impulsivamente, Marcela, começou a responder o rádio, como se estivesse hipnotizada.

- Por favor, permita que eu me apresente, sou um homem de riquezas e bom gosto. Estive por aí por muitos, muitos, anos. Roubei a alma e a fé de muitos homens. Disse a voz cantarolando Rolling Stones.

E com poucas palavras tudo o que Marcela mais desejava foi ofertado por uma simples troca de sua amizade. Marcela não entendia o que estava acontecendo, seus músculos estavam paralisados em completo estado de choque.

Júlia estava atrás de sua irmã com o semblante alegre e ao mesmo tempo sádico. Estava segurando uma tesoura toda ensanguentada.

- Jú?! Perguntou Marcela com uma voz baixa e trêmula.

Sua irmã respondeu:

- Simplesmente me chame de Lúcifer.

Por 13 segundos, Marcela, acreditou no Diabo e no Inferno.

___

Surgiram boatos que os familiares deixaram os pertences da família para doação na Igreja São Judas e que raramente alguém ia lá no domingo buscar.

Assim como Marcela sempre fui um tanto quanto cética, mas por ironia –ou não — do destino, minha mãe acabou pegando algumas doações dessa família na Igreja em que ela frequentava para me dar de presente quando pequena. E entre tantas bonecas, casinhas e panelinhas, estava o famoso rádio.

Meu irmão mais velho, Nobu, sempre soube dessa lenda e cresceu me contando essa história para me assustar.

16 anos depois de ter ganho esse rádio e esse CD da minha mãe e depois de ter ouvido tanta história resolvi bater de frente com essa lenda e ver se realmente existe. Me senti uma idiota fazendo isso. Afinal, por quê, eu, Caroline Hikari, 21 anos nas costas, estaria ouvindo um CD infantil reverso?! E o pior, acreditando em uma lenda urbana.

E como era de se esperar, nada aconteceu, cai na gargalhada. Vida que segue.

Cômico se não fosse trágico…

Quando estava prestes a cair no sono o rádio ligou sozinho e sua frequência começou a mudar, rapidamente pulei da cama e puxei o rádio pela tomada.

Prefiro não brincar com essas coisas…

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E onde está o CD? Aqui está. Chegou a hora e estou me desapegando dele.

http://sp.olx.com.br/sao-paulo-e-regiao/audio-tv-video-e-fotografia/a-voz-de-lucifer-315017473

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