É preciso dizer que preciso.

Não dou conta. Isso dói. E liberta.

Falei hoje pela primeira vez: “Não vai dar, não dou conta.” Uau, pensei imediatamente. Isso saiu da minha boca. Que libertador! Não, não vai dar, não dou conta. Espaço se abre aqui dentro. Estava doendo querer dar conta de tanto.

Na tentativa de cuidar de tudo, não cuidava de mim. E no não cuidar de mim, não tinha como cuidar do outro. E aí ele sentia. E eu também. Então, na liberação de espaço, com coragem, assumo:

Não mato no peito o que vier, não sou super-mulher.

Não quero seguir sendo multi-tarefas.

Não é porque estou acordada até tarde fazendo o que precisa ser feito que estou com energia pra fazer aquilo. Estou fazendo porque precisa ser feito.

Não fico bem dormindo menos de 8 horas por noite sem me alimentar com calma.

Não é porque estou disponível pra te escutar que não preciso ser escutada.

Não é porque eu te pergunto se você está bem que eu não preciso de cuidado. De colo. De carinho. De alimento.

Você não tinha como saber nada disso, né? Porque eu não disse. Eu não disse nem pra mim mesma, quanto mais pra você.

Então agora estou dizendo. Cansei de segurar a máscara da independente.

Ricardo Guimarães, em seu TED sobre interdependência, fala sobre fases da vida e a relação com a dependência. Segundo ele, as crianças são dependentes de um outro. Já o jovem quer sua independência a todo custo e fase adulta é marcada pelo estado de interdependência. A diferença da independência para a interdependência é que na primeira eu preciso de um outro mais forte e na segunda dependemos mutuamente um do outro. Eu dependo de você na mesma medida em que você depende de mim.

Agora que eu assumi que não consigo, podemos nos cuidar mutuamente?

Em mais uma descascada de cebola, chego a uma oitava acima da espiral ascendente de entender a interdependência.

Se não cuido de mim, não cuido de você. E, se não cuido de você, não cuido de mim. Porque nossa relação me é importante. E a falta de cuidado é sistêmica: o que vai, volta.

Cuidar de mim, no agora, é assumir que não consigo. Como é difícil assumir que não consigo! Mas não sou eu a pessoa que faz o que precisa ser feito? O que precisa ser feito, hoje, é assumir que não consigo dar conta de tudo. Respiro, peito aberto, ainda dolorido, mas aberto.

É preciso dizer que preciso.

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