A lição de 2018: Deus está dentro

Carolina Bergier
Dec 18, 2018 · 6 min read

Me arrisco a dizer que nas últimas semanas na Espanha e em Portugal vi mais imagens de Jesus de Nazaré do que no resto dos meus 32 anos. Em catedrais, igrejas, capelas, praças. Renascentistas, românicas, barrocas, goticas, neoclássicas, feitas de ossos. Em tamanho real, miniatura, como um gigante. Se teve uma pessoa que vi muito esses dias — além do Gui — foi Jesus.

Hoje, em Évora (Portugal), vi uma representação do corpo físico de Jesus sangrando, em tamanho real e me conectei com a possível sensação dos conterrâneos e contemporâneos que tiveram a oportunidade de escutá-lo, vê-lo e senti-lo. Eu acredito — e sinto — que a passagem dele por esse planeta pode ser mesmo uma experiência transformadora para os que acessaram e acessam seus ensinamentos. Um mestre que vivificou o amor, a verdade, a fé, a união e a esperança.

Vendo a representação desse homem sangrando, imagino como deve ser sido vê-lo crucificado para os que tiveram, ao vivo, seus corações expandidos pela vida e mensagem de Jesus. Imagino lágrimas vivas, gritos guturais, corações doídos, esperanças massacradas. O herói estava morto.

Mas será que essa não poderia ser mais uma lição da vida desse homem? Tirar a ilusão de que o mestre está fora de nós? Descondicionalizar a ideia de conexão com o divino, de que precisamos de algo além de nossos pensamentos, palavras e ações para podermos nos aproximar — ou não — do “Reino dos Céus”?

Não sou muito sabida sobre a vida de Jesus, mas me conectando aos seus ensinamentos sobre devoção ao amor, perdão, simplicidade e comunhão, me parecem destoantes as matanças, destruições de templos sagrados e planos políticos feitos em seu nome.

Sinto que a potência de sua vida era semear amor. Que poderíamos, depois de sua morte, seguirmos em simplicidade com a energia crística dentro de nós, sem precisar colocá-lo num pedestal nem cravar imagens suas em ouro vindo das colônias. Muito menos subjugar ou enriquecer em seu nome.

Falo pro Gui: “Acho que na época de Jesus não tínhamos maturidade para entender que não precisamos de heróis externos a nós.” Ele responde: “E temos agora?”

Me lembro de Bolsonaros, Joãos “de Deus”, Haddads e Prem Babas. Cada um deles considerado salvador por milhares-milhões de pessoas. Em 2018, desacreditados dos heróis fora de nós, fomos convidadxs a assumir os heróis, mestres, gurus e salvadores internos.

Me lembro da sensação vívida após a morte repentina de uma grande amiga no ano passado: “a Fê agora segue em nós.” Era claro que os aprendizados que ela nos trouxe em vida — e em morte — agora seguiam conosco para onde fôssemos. A Fê semeou belezas por onde foi.

Semear.

Me lembro de Marielle. Das lágrimas vivas, gritos guturais, corações doídos e esperanças massacradas quando de seu assassinato (que segue sem resolução). Mas Marielle virou semente e segue brotando em muitxs de nós.

“Eu sou porque nós somos”, ela dizia. Aprendi com o caminho espiritual que só consigo enxergar no outro o que tenho em mim — na luz e na sombra.

Se Marielle virou semente, é porque sua maneira de estar no mundo refletia a voz de muitxs. O mesmo com a mensagem pura de Jesus de Nazaré. E poderia ser o mesmo com a parte alinhada à luz de Prem Babas e Joãos “de Deus”.

Resgatemos o mestre interno. Sejamos nós mesmos aquilo que nos inspira fora de nós.

As igrejas — espaços dedicados ao rezo e a conexão com os ensinamentos de Jesus — nas quais mais me conectei ao divino durante essa viagem foram as mais simples — com menos dourados, mármores, colunas e requintes, que acabam, na minha percepção, por nos distanciar do “Reino dos Céus”. A arquitetura de grande parte das igrejas que visitamos sugere que seja necessário muito para nos conectarmos ao divino e consequentemente nos percebemos distantes do que nomeamos de Deus. Gosto da ideia judaica, cultura na qual cresci, que todxs temos acesso direto a Deus e que também por isso não se cultuam imagens de seres humanos, santos, virgens nem anjos como ponte para o divino.

No livro “Amar e Brincar”, Humberto Maturana e Gerda Verden-Zöller falam sobre a religião nas culturas matrísticas, nas quais há cooperação entre feminino e masculino e não há controle de autoridade, como na cultura celta. Nessas sociedades, a conexão espiritual estava igualmente disponível para todxs. Não haviam pessoas mais ou menos conectadas a Deus. Nas religiões patriarcais, depende-se de uma figura externa — e superior — a nós para estarmos em conexão com o divino. Há uma hierarquia.

A etimologia da palavra hierarquia vem do grego, hierosque (sagrado) e arkhei (ordem e governo). Ou seja, em sua raiz fala sobre uma ordem de proximidade ao sagrado: papas, cardeais, bispos, arcebispos, padres… (só para mencionar o catolicismo, religião com a qual tenho convivido bastante nessa parte do mundo). A hierarquia ficou bem clara na arquitetura das igrejas que visitamos. Altares rebuscados, dourados, abóbodas majestosas, onde parece se dar a ponte com o “Reino dos Céus” e onde somente os representantes oficiais da Igreja entram.

Tenho repertório suficiente hoje para afirmar com segurança: não precisamos de ninguém fora de nós para nos conectarmos a Deus nem a Deusa. A conexão vive dentro de nós. Esse é nosso direito de nascença, nosso estado original. Já experienciei isso de muitas maneiras: na natureza verde, brincando com crianças, fazendo rituais xamânicos, em círculos de mulheres, jejuando, cantando, dançando, em experiências psicodélicas, fazendo amor, meditando, durante diálogos profundamente significativos, escrevendo, escutando, servindo.

O filósofo e escritor americano Charles Eisenstein, em seu artigo “Porque a Era dos Gurus está Encerrada” (Why the Age of the Guru is Over), traduzido aqui, sugere que não há salvação sem mudança de paradigma e transformação na relação com a natureza e com todos os outros seres. “Para viver num estado mais iluminado nós devemos ser mantidos ali por uma comunhão de novos hábitos, novas maneiras de vermos uns aos outros, e novas crenças que, na prática, redefinam o normal”, ele diz. Para Eisenstein, a iluminação é um trabalho coletivo.

No artigo, ele fala sobre a Realização Bodisatva: “É impossível entrar no Nirvana sozinho. Se qualquer ser senciente for deixado pra trás, então parte de mim é deixada pra trás”. Por isso, o guru não pode ser nenhum além do coletivo. Nesse ano aprendemos isso a duras penas.

Para o monge budista Thich Nhat Hanh, “O próximo Buda será uma sangha”. Sangha é uma palavra em sânscrito que quer dizer comunidade com um objetivo, visão ou propósito comuns. Ou seja, a próxima manifestação de Deus na matéria será (ou já está sendo) uma (ou muitas) comunidade (s).

Uma comunidade é feita por indivíduos. Não há grupo que siga firme em seu propósito sem o compromisso das individualidades. Me parece mais fácil escorar-se no grupo para fugir das responsabilidades individuais. Precisamos ter coragem de assumir para nós mesmos a responsabilidade individual de trazermos amor, representatividade nas instituições, conexão espiritual e cura para si e para o mundo. Vários pontos de luz unidos iluminam um ambiente.

Somos Deus e Deusa em movimento. Deus(a) não tem pés nem mãos a não ser os nossos. O que Deus e a Deusa têm pra trazer ao mundo através de você? Quem é você sendo Deus(a) em movimento? O que seu mestre interno veio ofertar? Como suas ações têm — ou não — refletido os valores dos mestres e/ou religiões que você admira?

Formemos nós mesmos as comunidades que vão iluminar o mundo. Temos muito trabalho pela frente. E para dentro.

(registro feito durante o Transborda Portugal por Cláudia Vargas)

Carolina Bergier

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