As coisas que aprendo aprendendo a tocar violão

Esse texto não é sobre fazer algo bem. É sobre aprender sobre si mesmo.

Estou há um mês e pouco aprendendo a tocar violão. Não aprendi ainda, mas aprendi muitas outras coisas sobre mim mesma, sobre a vida e, principalmente, sobre iniciar algo que você não domina e, consequentemente, não é bom. Compartilho esses aprendizados aqui.

Mas, atenção. Esse texto está sendo escrito por uma pessoa que começou a tentar tocar violão há menos de um mês. Se você sabe tocar e detectar nos próximos parágrafos quaisquer erros técnicos ou de nomenclatura, tenha paciência comigo. Eu também estou tentando ser paciente comigo mesma.

(Antes de adentrar os aprendizados propriamente ditos, fiz um glossário para a galerinha leiga entender minimamente e pra galerinha não leiga entender minimamente também, porque eu invento palavras quando não sei qual a palavra oficial.

O ACORDE: aquela combinação de dedos que ficam na haste do violão. É difícil pra burro mudar de um acorde pro outro com rapidez e muito desafiador apertar as cordas com a força exata pro som sair bonito, sem que o dedo que está em uma corda encoste em outra corda. Quando isso acontece, o som sai meio gafanhôtico. (Imagina só um gafanhoto tocando violão!)

TOCAR AS CORDAS: é o que você faz com a mão que não está ocupada com os acordes. Pode ser com o dedão (ainda tô por aqui); com a palheta, que é aquele trocinho pequeno que a galera joga pros fãs no fim do show (e que faz com que seus erros nos acordes fiquem muito evidenciados); com todos os dedos numa desmunhecação (tô começando a aprender isso aqui); ou no dedilhado (o som fica infinitamente mais bonito mas ainda não me arrisquei).)

Agora que vocês já entenderam um pouquinho, vamos aos aprendizados:

Percebi que me sentia frustrada sempre que o Gui (que está me ensinando sem ter ele mesmo muita prática no ensino) queria me mostrar algo novo sem que eu tivesse sentido necessidade de aprender aquilo. Fiz um acordo com ele: “só me ensina o que eu pedir pra aprender?” Essa foi minha maneira de ir no meu ritmo e de ir realmente assimilando o que aparecia de novo. Está funcionando. Pra ele ás vezes é difícil, porque ele sabe que poderia me ajudar a melhorar. Mas também é muito lindo quando eu descubro algo sozinha, na tentativa e erro. Ir no meu ritmo está fazendo com que eu crie uma outra relação com o instrumento e comigo mesma. Não sei ainda de cor que acorde é qual, as nomenclaturas de cada coisa, não faço nem ideia de como ler partitura. E isso, no momento, não está me fazendo falta. No momento em que fizer sentido, aí sim, peço pra aprender.

Aprendizado #1: Aprendizagem é diferente de ensinagem.

Eu estava há tempos só tocando as cordas com o dedão. E pedi: me ensina a fazer diferente? Enquanto ele segurava a haste do violão e cuidava dos acordes, minha função era só soltar a mão no ritmo. Estava tão ruim que fiquei até vermelha de vergonha. O som era um desastre absoluto. Parecia criança quando pega num teclado e usa todos os dedos e palmas das mãos pra brincar. Essa era eu. Feito criança.

Soltei a mão umas 3 vezes tentando fazer o som ficar não-desagradável e, assumindo a catástrofe da tentativa, parei, nervosa, gargalhando de vergonha. Isso durou alguns bons e longos minutos. “Nunca vou conseguir! Chega!” Até que ele teve uma linda sacada. Enquanto abanava suas próprias mãos, disse, com um sorriso cúmplice no rosto: “Vai, solta essa mão, solta! Faz qualquer som nesse violão, um som qualquer mesmo! Vê aí o que acontece.” No começo, o caos. Um ritmo de nada com coisa nenhuma. Até que, aos poucos, a mente foi relaxando, o julgador interno acalmando e, o ritmo chegando. No fim da música, o som estava bem aceitável.

Aprendizagem #2: Permita-se ser ridícula.

Aprendizagem #3: Ás vezes a melhoria vem num raio, mas a mente precisa acalmar.

A ideia de aprender a tocar violão começou no dia 31 de dezembro, quando desenhávamos o ano que chegava (aqui nesse post como foi o passo-a-passo desse processo). No fim da meditação de despedida de 2015, na cachoeira, uma música me veio cabeça. Eu não a escutava há dois anos, mas ressurgiu clara e cristalina. Não coincidentemente, o Gui havia escutado a música pela primeira na mesma ocasião que eu e também percebeu-a pipocar na mente na cachoeira. Cantamos juntos, com a água doce passando. Um música linda, que fala sobre deixar a mente se esvaziar de pensamentos para que amor, paz e serenidade reinem.

Assim como a música apareceu, veio também a certeza de que eu a aprenderia no violão. E assim foi. Uma canção simples, que eleva a vibração, que posso repetir por tempos a fio sem me cansar. Algo necessário quando você está aprendendo a tocar.

Aprendizagem #4: Escolha engajar-se em algo que suporte repetir por um longo tempo.

De um mês pra cá, toquei primordialmente essa única música. Estou no processo de aprender outras duas, mas essa é o foco principal. As outras dão adubo pra que eu entenda melhor a lógica violonesca. São músicas que exercitam o passar de um acorde pro outro, com acordes parecidos. Se não fosse por elas, talvez o processo ficasse entendiante. Aprender uma só música poderia ter sido como na monocultura, onde o solo fica pobre por só ter uma espécie presente. A monocultura busca a eficiência. A colheita é mais rápida. Se eu estivesse estudando só uma música, poderia dominá-la em menos tempo. Mas o aprendizado é como a agrofloresta. Mais espécies enriquecem o solo e cuidam dele a longo prazo, mas deve haver espaço suficiente para cuidar do crescimento saudável de cada uma delas. Aprender três músicas está deixando o processo mais rico, cuidando do aprendizado a longo prazo. Não estou aprendendo mais rápido, mas de maneira mais rica. Talvez, se estivesse aprendendo uma dezena de músicas ao mesmo tempo, não decoraria os acordes e suas ordens. Talvez desse bug no sistema, ou eu sentisse que não estou evoluindo e desistisse por isso.

Aprendizagem #5: Aprendemos mais quando aprendemos mais. (Cuidado com o excesso).

São três acordes, ritmo tranquilo. No início, o som estava doloroso aos ouvidos. Um mês depois, com músculos da mão doendo e dedos calejando, até que está bonitinho. Muito tempo pra pouca melhora? Olhando por um lado, sim. Por outro, meu cérebro ainda não conhecia essa lógica. Demora um cadinho pra ele se acostumar a fazer uma coisa com uma mão, outra com a outra, prestar atenção nos acordes, no ritmo, na letra. Pra que começou há um mês, estou feliz com meus resultados. Está sendo gratificante ver não só minha melhora técnica, mas como estou sendo paciente comigo mesma.

Aprendizagem #6: A prática é mesmo importante (pra desespero dos ansiosos).

Aprendizagem #7: Não se cobrar ser melhor do que já é dá espaço para a melhora.

Agora, se você ouvir qualquer pessoa com mais prática tocando a mesma música, meu bem, você vai achar que eu sou o zero a esquerda mais a esquerda dos zeros as esquerdas. E eu vou lá querer me comparar com elas? Sou nem doida! Se eu entrar nessa desisto e nunca vou chegar ao patamar aceitável, quanto mais ao “até que mando bem”!

Aprendizagem #6: A comparação é a melhor amiga da frustração.

Reconheci, nesse processo que raramente me permito iniciar algo que sei que serei muito ruim. “Se é pra entrar em campo, é pra arrasar.” Essa sempre foi minha lógica. Quanta diversão perdi nessa necessidade maluca de perfeição! Percebi que todas as pessoas que tocam bem violão já passaram por esse momento, mas a gente nunca vê esse processo acontecendo. Poxa, quando a criança consegue enfiar a colher na própria boca fazemos uma festa, colocamos no youtube e temos milhares de visualizações. Quando alguém consegue fazer com que um acorde soe harmônico no meio de todos os outros de som de hiena-bêbada-e-rouca-cantando-marisa-monte, a gente nem celebra.

A gente só vê os bam-bam-bans fazendo. Não vemos os que desafinam, os que tocam um acorde pensando que é outro, os que erram o ritmo e não têm força na ponta dos dedos, os que não conseguem fazer do acorde aquele bléum perfeito e produzem um bliuéuam. Pessoas (ainda) ruins, cadê vocês para estimulares os outros também (ainda) ruins? Eu estou aqui, ainda bem ruizinha, pra estimular todos aqueles que estão iniciando algo na vida. É muito raro sermos bons de primeira. Antes da colher entrar na boca, ela acertou a bochecha algumas centenas de vezes. Por mais vídeos de colheres nas bochechas e acordes errados, eu não atiro a primeira pedra, mas posto o primeiro vídeo!

Aprendizagem #7: Celebre as pequenas conquistas.

Aprendizagem #8: São raros os bons que nascem bons.

Se você está querendo começar algo novo na sua vida mas está com medo de não conseguir realizar ou ser bom, o mínimo que vai acontecer se você começar é aprender bastante sobre si. E só isso já é a aula mais importante da universidade da vida.

Desejo começos sustentados, sustentáveis, alegres e firmes pra todos nós!

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