Escrava do tempo que acreditei existir

“A falta de tempo pode ser vista com um sinal do apocalipse, quando não nos resta mais tempo.” ouvi ontem de Renato Noguera, no Semente.

O queixo caiu. Tenho me sentido à beira do (meu próprio) apocalipse. A agenda lotada. Hora pra tudo. Passo cerca de uma hora do meu dia organizando agenda. Como pude me deixar?

TEMPO. Quero tempo pra ser. Tempo pra ser eu. Só eu. Sendo.

Por muito tempo, fui viciada no fazer. Estou em processo de desintoxicação. Ainda caio no vício do fazer com (bem) mais frequência do que gostaria. Fazer compulsivo.
Fazer pra não sentir. 
Fazer pra estar em outro lugar que não aquele que estou. 
Fazer para não estar presente aqui. 
Fazer pra me provar pra mim e pros outros.

Essas idas pro mato têm me ensinado sobre um outro ritmo.

Não é necessariamente um ritmo onde não se faz. Mas se faz num outro ritmo. Faço com outra motivação. Faço porque, a partir do não-fazer que abre espaço pro ser, surge em mim uma vontade real do fazer. Não é o produzir pela produzir. É um fazer do sentir. E não um fazer pra não sentir.

Uma vontade do fazer a partir do ser. No mato, (um pouco) mais afastada da opressão da sociedade de consumo, não me sinto forçada a produzir. Se não tem tanta urgência de consumo não tem tanta urgência de produção. Eu produzo, em parte, pra consumir. E o campo vibracional da cidade reflete esses milhões que urgem por consumir e por isso precisam comprar. E aí, nesse mar de consumo-e-produção-e-serviço-e-de-falta-de-conexão, eu preciso fazer.

Sai o vento, o cozinhar, o varrer, o plantar, o contemplar, o ouvir, colher, escrever, amar, dançar, martelar, desenhar, calcular, projetar, curar, conversar, sonhar, planejar, realizar, celwbrar. Tudo reflexo de ser.

Na urbe me identifico com a realidade das reuniões, reuniões, whatsapps, e-mails, notificações, ônibus, horários, horários. Tenho hora para estar com vontade de estar em grupo. Hora para estar concentrada para atender. Hora para ter fome. Hora para querer amar. Hora pra tudo. Sou escrava do tempo que eu mesma acreditei existir.

E meu tempo interno? Quero menos chronos, mais kairós.

Quero poder passar tempo sem me preocupar com o tempo.
Quero ser o que faz sentido ser sem hora pra acabar de ser o que estou sendo. Quero isso até ter vontade de que seja diferente do que está sendo. Sem a obrigação de obedeceder ao tic tac.

Então, se eu não responder seus inboxes, whatsapps, e-mails, directs e sinais de fumaça, é que tô aprendendo a ter tempo pra ser. Tô aprendendo a ser meu próprio tempo.

Pode ficar feliz por mim. Tô evoluindo. Vou até poder te responder com mais vontade e presença.

E se você me flagrar fazendo diferente disso, me avisa? Ainda caio no automático e preciso de ajuda.

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