O que aprendi empreendendo a Casa Sou.l

Carolina Bergier
Dec 6, 2018 · 5 min read

Depois que passei a trabalhar com coisas alinhadas a quem eu era e ao que eu acreditava, o pensamento “e depois?” não tinha espaço. Eu mudava e naturalmente as oportunidades de trabalho surgiam — escrevi matérias, participei de documentários em lugares remotos do Brasil, facilitei encontros sobre sustentabilidade e inteligência emocional para o Ensino Médio.

Nada premeditado, tudo cheio de sentido. Eu me agarrava no presente e em tudo que ele me presenteava, sem acreditar na ilusão de que um plano de carreira me traria segurança.

Era 2012, eu estava no Gaia, curso de design para sustentabilidade, ampliando meu repertório de ferramentas e sensações sobre a criação de vidas regenerativas e me conectei a centenas de pessoas engajadas em mover estruturas que cuidam da Vida.

Fui chamada pra tomar um café com alguém que acompanhava o blog que escrevia desde o período sabático (escrevi sobre em posts anteriores). Eu pensei em não ir, mas algo em mim falou SIM.

O café se tornou um papo profundo e terminou com um convite: “vamos abrir uma escola pra adultos juntos?”. Nunca havia pensado em empreender, achava que precisaria de um ideia mirabolante. Tomada pela animação, adrenalina, medo e confiança na vida, SIM.

Começamos eu, Ricardo e um time de especialistas a pensar a Casa Sou.l. 8 meses de conversa, estudo, canvas, contatos, mapas mentais, planilhas, reformas, intuições, incertezas e ousadias.
Em julho de 2013 abrimos as portas da Casa Sou.l, um espaço de encontros sobre empreendedorismo, sustentabilidade, autoconhecimento e educação numa grande festa.

Hoje penso que não era um ideia tão original, imagino que já devia ter passado em outras cabeças. Até onde sei, fomos os primeiros no Rio a tirar a ideia do papel. Muitos fatores contribuíram para que fosse possível manifestar esse sonho. Hoje, o que está mais vivo em mim é que não miramos na perfeição. Abrimos com o que era possível.

Aprendi que empreender não é necessariamente sobre ter uma ideia mirabolante, mas sobre ter coragem de correr o risco de tirar algo do papel e de lidar com suas idealizações. Foram muitos riscos tomados e idealizações quebradas.

Centenas de workshops, palestras e vivências aconteceram na Casa Sou.l. Nasceram ali empresas regenerativas, escolas e desescolarizações, projetos, demissões e contratações, relações, maternidade e paternidades.

Cometi muitos erros tive incontáveis aprendizados. Abri caminhos e queimei largadas.

A Casa Sou.l foi minha grande escola de facilitação. Aprendi observando centenas de facilitações de grandes mestres.

Abrir as portas fez com que portas se abrissem pra nós. A rede de apoio foi crescendo, a repercussão do trabalho também. Fui apoiando e sendo apoiada, num fluxo abundante de dar e receber.

Eu era mil e uma utilidades, sempre com muito apoio de uma equipe que virou família e a qual sou muito, muito grata. Eu cuidava de infra-estrutura, RH, financeiro, RP, comunicação, curadoria, apoio de facilitação, de anfitriar. Era cansativo e trabalhoso, eu não tinha final de semana há meses. Ao mesmo tempo, cresci muito e aprendi como empreender é um eterno jogo de pagar o preço da autonomia. Para cada “sim”, algum “não”.

De tudo que eu fazia, o que mais me dava prazer estar com as pessoas, pensar no fluxo dos encontros. As partes infraestruturais me cansavam exageradamente.

Ao mesmo tempo, as contas não estavam fechando. Eu trabalhava há tempos sem receber, minha pequena geração de renda vinha de outros projetos.

Me via em diálogo interno:
“Faz parte da vida de empreendedora”
“Mas precisa ser tão grande e tão pesado?”
“Ah, ser adulta é isso, ter responsabilidades! Nada é só prazer.”
“Mas então como poderia ser responsável e prazeroso ao mesmo tempo?”

Depois de dois anos de empresa, seguidas conversas entre eu e Ricardo deixaram claro que era hora de seguir adiante, sem casa física, nem sociedade. Eu confiava muito nele e em suas décadas como empreendedor, mas era hora de assumir minha autonomia sem dependência. Eu em muitos aspectos deixava com meu sócio decisões importantes por ele ser mais velho e mais experiente. Coloquei-o inconscientemente no lugar de pai que cuida e protege, mas esse não era o papel dele. Eu precisava cortar o vínculo de dependência para amadurecer e me adultificar.

Eu seguiria sozinha com a Casa Sou.l, de forma itinerante.

Foram tempos sombrios esses. Mesmo com a certeza de que esse era o caminho, reconhecendo que um projeto como esse precisa de um outro tipo de estrutura organizacional para se de pé, me vi sem chão em com uma dívida grande com funcionários e parceiros. Me lembro de chorar no colo da minha mãe, empreendedora por muitos anos e ouvir: “liga para as pessoas, fala a verdade e negocia um prazo maior pro pagamento”. Como foi bom que alguém me dissesse o que fazer em um momento de inexperiência! Baixei a cabeça, assumi vulnerabilidade, peguei o telefone e pedi apoio, com ela do meu lado.

A rede construída foi essencial nesse momento, recebi mais do que poderia imaginar. Amigxs deram palestra de graça, palestrantes abriram mão do seu pagamento com alegria, dezenas de pessoas doaram roupas e se organizaram pra fazer brechó, pessoas que haviam tido suas vidas transformadas naquela casa doaram dinheiro. Pequenos grandes milagres acontecem quando estamos alinhados e confiantes no fluxo divino. Em 30 dias quitamos as dívidas.

Aprendi que dependência e apoio são coisas bem diferentes, com um limiar tênue entre elas. Aprendi sobre dependência, independência e interdependência.

E também sobre poder de trabalhar em prol de um propósito coletivo. Aquele sonho não era só meu. Muita gente se organizou não só em gratidão ao que a Casa Sou.l havia proporcionado em suas vidas, mas sinto que também o propósito da empresa cuidava de necessidades individuais e coletivas.

Respirei, agradeci, arregacei novamente as mangas e segui. Sem equipe nem sócio, com a sensação de estar sendo muito acompanhada por muitxs, com a certeza de fazer parte de um sonho coletivo. Com mais estrutura interna para lidar com os desafios do caminho e com o início de um aprendizado que segue me revirando: empreender, pra mim, é mais sobre desconstruir do que sobre construir.

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