slow tourism, assim na viagem como na vida

Carolina Bergier
Dec 20, 2018 · 3 min read

Foram duas semanas de carro no sul de Portugal e Espanha, passando não mais que três noites em cada lugar. Vimos e vivemos belezas majestosas que nem nos meus melhores sonhos eu poderia imaginar. Praias selvagens, cidades históricas, vistas grandiosas, palácios, catedrais, mirantes, sensações inesquecíveis. Inspiração e beleza a cada esquina.

Foi um tal de desfaz mala, faz mala, define pra onde vamos a seguir, arranja lugar pra ficar, pesquisa lugares a serem visitados e restaurantes onde podemos cuidar minimamente de nossa saúde. Caminha pra lá, se perde, caminha pra cá, senta que o pé não aguenta mais, se depara com belezas estonteantes. Chora de tanta beleza, é arrebatado por paisagens naturais hipnotizantes. Estuda a história do lugar, se impressiona com o que estuda, escuta dezenas de línguas no mesmo dia e já não sabe mais em qual falar. Muda de cidade, coloca a rota no Waze, escolhe a música, vê mais paisagens estonteantes. Apreende e aprende.

Depois de 12 dias na estrada, estávamos em Alhambra, o monumento mais visitado da Espanha, uma cidade medieval amuralhada e autónoma, localizada em uma colina, com palácios, mesquitas, escolas, oficinas e todos os demais serviços fundamentais para seu funcionamento. Não tenho palavras para descrever a riqueza arquitetónica e decorativa. Era tudo muito, muito, muito lindo. E nossa reação, ainda que reconhecendo a imponência daquele lugar, não estava à altura do que estávamos vendo. Nosso sistema estava tão cheio que era necessário uma pausa para decantar tudo aquilo.

Viemos para esse lado do mundo também para termos uma pausa da vida (linda e) cotidiana no Brasil e, com mais distanciamento e tempo, colher aprendizados de 2018 e sentir/intuir o que queremos para 2019. Serão ao todo 50 dias por aqui.

Meus processos de criação são muito alimentados por novos estímulos: cores, cheiros, texturas, músicas, sensações. E depois desse inspirar, aprendi com a experiência que preciso de uma pausa para processar.

Inspirar, pausar, exalar.

Fui condicionada a valorizar muito a exalação: manifestação e realização de projetos. Se eu não estiver atenta, crio uma coisa atrás da outra. Nos últimos anos tenho percebido que realizações que se sustentam dependem de boas inspirações e pausas.

Quando decidimos parar de conhecer novos lugares e voltarmos a Lisboa, onde temos uma base, para ficarmos mais quietos e dentro de casa, uma voz em mim falou “que desperdício, Carol! Veio pra Europa, está fazendo uma roadtrip e vai desistir de seguir? Vai botar o rabo entre as pernas e voltar para Lisboa? Cadê a Carol exploradora, aventureira, desbravadora? Ih, tá velha!”

Não.

Vou voltar a Lisboa por assumir que já vivi coisas lindas o suficiente e para honrar minha passagem por aqui. Vou processar o tanto que já vivi até agora, pra fazer o máximo dessa experiência e criar a partir de uma inspiração integrada (vem novidade boa por aí!).

Não serei mais um fantasma faminto. Nos ensinamentos budistas, os fantasmas famintos comem sem parar, pois não conseguem absorver o que precisam. Vagam sem rumo, em busca de alívio, mas não encontram. Parte de nossa doença coletiva é não saber a hora de parar. Querer sempre mais, mais, mais. Mais dinheiro, mais poder, mais sexo, mais coisas, mais status, mais inspiração. Querer mais do que somos capazes de processar. Alimentar o ego.

De que adianta viajar por viajar? Para colocar mais “pins” no mapa mundi mental?

Não.

Vou reconhecer meu limite.

E assim expandi-lo, com ritmo e consistência.

Assumir que estou satisfeita com o que vivi até agora. Nesse momento, não preciso de mais. Isso, para mim, é revolucionário.

Vou parar para ir mais longe. Vou pra dentro processar, pra depois ir para fora e realizar com mais consistência e existência.

Sim.

Há de se saber a hora de pausar.

Carolina Bergier

Written by

comprometida com o que me faz viva

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade