Viver a morte é estar muito vivo

Esse é um texto sobre a morte. Para que a gente possa “destabulizar” algo comum a tudo que vive.

A morte é um portal de Vida. Há de se ter coragem para adentrá-lo.

Há muito aprendizado em viver a Vida-Morte-Vida, em respirar e respeitar o milagre da existência, em se deparar com a finitude d(ess)a vida e com isso se sentir mais pertinho de Deus (que eu tenho entendido como a Vida com um V bem grandão, a energia suprema que tudo cria). Muito aprendizado em se perceber mais sutil e aterrada por estar vivenciando algo tão nu e presente no espírito e na matéria. Em perceber que não há dois mundos diferentes e enxergar a morte como uma outra maneira de vida.

Viver a morte é sentir intensamente e com isso estar muito vivo. Mas, pra viver a morte com a possibilidade de receber vida, há de se abrir a porta para a dor. A porta fechada pra um sentimento é a porta fechada pra todos eles. Ao fechar a porta pra dor, você fecha também pra gratidão e alegria que podem surgir ao se atravessar os aprendizados que a morte traz. Os sentimentos, nesse momento, são grandes portadores de insights. Sentir amor em profundidade, assim como sentir a dor. E com isso, colher aprendizados.

Quando a Fê estava fisicamente entre nós, nossa relação me ensinava muito sobre deixar fluir. Eu tentava controlar e ela me relembrava do fluir, do estar a serviço do que a vida estava pedindo. Pra mim era difícil, pro meu ego era difícil aceitar. Até porque ela também tinha o ego dela com questões que a impossibilitavam de fluir com a vida. Junto com a encarnação e a matéria vem o ego, que nos possibilita vivenciar o mundo material ao mesmo tempo em que nos traz barreiras internas para dar e receber amor. Eram dois corações que se ama(va)m muito e dois egos que se bicavam também.

Uma amiga disse recentemente que a morte de alguém amado é como uma árvore que cai na floresta e traz insumos para as espécies que seguem de pé. Sinto o mesmo com a passagem da Fê. Tenho podido aprender e crescer tanto… Ela não está mais na matéria e com isso não está mais no ego. Sinto a Fê puro amor. Não tem mais ego pra bicar com o meu então tenho aprendido, com sua morte, o que não consegui aprender em sua vida. Agora, a cada troca, me pergunto: o que esse ser tem para me dar que meu ego não se permite receber? E eu, o que o amor em mim tem para ofertar para esse ser?

Com medo não só de acessar a dor, como também de reconhecer nosso medo da morte, a gente finge que ela não existe, mesmo sabendo em algum lugar que a única certeza que temos é que vamos todos morrer. E se a morte nos visitará com profundidade em algum momento da vida, porque é que a gente não a convida pra um chá? Se não podemos evitá-la, por que não melhorar a nossa convivência com ela?

A morte traz consigo um repensar profundo pra quem, com respeito, a deixa entrar. Não é fácil olhá-la nos olhos. Nosso reflexo em sua íris revela medo não só de reconhecer nossa própria mortalidade, como também de reconhecer que não estamos fazendo jus à vida.

Ao reconhecer em meus poros que cada momento pode ser meu último, uma pergunta vem me acompanhando: “Carol, andas vivendo para quê?”. O que você quer priorizar em suas escolhas?

A resposta tem sido: quero uma vida em amor, onde estou comprometida em obedecer a mais pura verdade do meu coração, a verdade interna que é puro amor em movimento.

A cada nova possibilidade, fico com a pergunta: o que o amor escolheria agora?

O que o amor em você escolheria agora?

Eu achava que a morte usava capa preta. Ao olhá-la nos olhos, notei: ela é mestra em tirar véus.

Amor e gratidão a você, amada, que segue me ensinando desse lado daí da Vida. Te sinto daqui, te amo daqui, te honro daqui. Agradeço por me presenteares com tanta Vida.

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