Viver (in)coerentemente (des)educa

Há alguns anos venho investigando o papel da educação. Como minha educação impactou quem sou hoje? Percebi que essa pergunta não pode acontecer só no passado. Não é “impactou”, é “impacta”. Sigo sendo educada e deseducada. Sigo aprendendo e desaprendendo.

Comecei a ficar confusa.

Percebi que aprendo com todos: com o professor, com a chuva, com meus pais, com meus sobrinhos, com os livros, o YouTube, com a floresta e as águas, com minha respiração, com minhas relações, com meus sonhos, com minha terapia, com as cores, com a Vida.

E aí, se a Vida me ensina a cada agora, precisei dar um passo pra trás: Afinal, o que é educação? Onde a educação acontece? Quem pode ser considerado educador?

Andei e desandei muito em busca dessa resposta. Visitei países, escolas, comunidades, pessoas, lugares dentro e fora de mim mesma. Muita percepção pra um só texto. Nesse caminhar, uma frase me parece resumir muito do que estou desvendando: “o que você faz fala tão alto que eu não escuto o que você diz.”

Me parece que educar não é transmitir conteúdo nem falar sobre como as coisas deveriam ser. Me parece que educar é viver de acordo com o que se acredita. É escolher, a cada dia, ser a versão mais atualizada de si mesmo e viver de acordo com seus valores, com todos os paradoxos e desafios envolvidos. Educação é estar em relação e, a cada estímulo que essa relação traz, ter presença suficiente para agir de acordo com seu centro. Agir, não reagir. Fazer a partir do que faz sentido naquele momento e não de como deveria ser. É perceber que “educação só se faz no plural”, como diz Tião Rocha. Educar é fazer em relação, para além do falar solitariamente.

Estamos em relação a todo momento. Estamos vivendo — ou não — de acordo com o que acreditamos a todo momento. Então, todos somos potencialmente educadores: empreendedores, professores, estudantes, escritores, carpinteiros, mães, pais, filhos. E a educação acontece em todo lugar: na escola, em casa, na rua, nas empresas, nos espaços de coworking, na floresta, no ônibus, no mar.

Olhando pra trás, as pessoas que mais me lembro de terem me ensinado foram aquelas que faziam mais do que falavam. O professor de literatura que não só questionava o que ele chamava de sistema, mas dava aulas de uma maneira disruptiva e, inclusive, foi expulso da escola por isso; a professora de dança que fazia do corpo seu meio de expressão e era possível entendê-la por inteiro com um só gesto; um investigador de Comunicação Não-Violenta que leva às últimas consequências sua confiança no diálogo; um homem que quer regenerar a Terra e vive no mato reflorestando através da agrofloresta; uma mulher que acredita na desescolarização e vive para desescolarizar-se.

Todos eles — e todos os outros — vivem coerentemente com o que acreditam e se responsabilizam pelas consequências de assim viver.

Todos nós vivemos em mais ou menos coerência. E isso, por si só, já educa — ou deseduca. Afinal, tantos de nós pedimos silêncio gritando ou falamos para as crianças saírem da frente da TV quando nós mesmos não largamos o smartphone. Outras vezes, falamos em colaboração e temos preguiça de mudar a rota para dar carona a um amigo. Falamos sobre a importância de confiar nos outros e seguimos desconfiando das pessoas que nos ajudam a deixar nossa casa harmonizada ao primeiro sinal de que algo sumiu. Falamos em honrar a natureza e seguimos comendo carne. (Se não entendeu o que a natureza tem a ver com o consumo de carne, recomendo ver esse documentário, e não estou falando dos animais somente. Estou falando do nosso futuro na Terra.)

Pois é… Viver coerentemente faz com que a gente precise olhar pra lugares não muito agradáveis, que nos tiram de nossa zona de conforto e podem mudar radicalmente nossos hábitos. A coerência é um caminho. Quanto mais caminhamos, mais vemos que temos mais estrada pela frente. O importante é caminhar. Assumir a incoerência e caminhar.

A incoerência está aí, está aqui. Percebê-la é o primeiro passo para transformá-la. O que você faz fala mais alto do que o que você diz. A ação é mais poderosa que o discurso. Vejamos Gandhi e Martin Luther King que fizeram de suas vidas seu discurso. Onde nós ainda falamos e não fazemos? Onde nós ainda não somos a mudança que queremos ver no mundo?

Se a (in)coerência (des)educa, todos somos educadores e todo espaço é educador. Assim, todos somos co-responsáveis pela educação de todos — a nossa inclusive. Para nos aproximar de sermos o que falamos e podermos educar para o mundo que queremos, nasceu o Semente, um percurso em educação com significado que está em sua 4a edição. O Semente é um processo investigador de qual é o papel da educação na vida de cada um de nós e como podemos ser cada vez mais coerentes com o que acreditamos. Ele desconstrói e reconstrói.

A cada edição trazemos educadores que estão vivendo essa coerência e transformando suas vidas e as vidas ao seu redor. Nessa edição, contaremos com a presença de José Pacheco, Dominic Barter, Ivana Jauregui, Renato Noguera e Carla Ferro.

Estamos nos últimos dias de inscrição. Então, se você se sente chamado a viver uma vida cada vez mais coerente com o que acredita, vem com a gente!

Semente, um percurso em educação com significado.
* Quando? 04 de maio a 8 de junho
* Onde? Gávea
* Inscrições e mais informações aqui
* Parcelamento em até 10x, desconto no cheque e em dinheiro

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