Desigualdade de gênero no cinema

A vida imita a arte ou a arte imita a vida?

Filme Doze Homens e outro Segredo (2004): George Clooney, Brad Pitt, Matt Damon, Andy Garcia e Julia Roberts

Pesquisa salarial realizada pela empresa Catho, em Março de 2017, revelou que as mulheres ganham menos que os homens em todos os cargos. Esta mesma pesquisa apontou que em alguns cargos, homens chegam a ganhar 62,5% mais que as mulheres.

Esses dados reforçam a realidade machista que nós mulheres enfrentamos também na esfera profissional. Infelizmente, esta não é uma dificuldade encarada por mulheres somente no Brasil, mas em todo o mundo, inclusive na indústria cinematográfica.

Algumas estrelas de Hollywood têm trazido a tona esta importante questão da não equidade dos salários entre atores e atrizes.

A atriz Patrícia Arquette, ganhadora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua participação no filme Boyhood em 2015, aproveitou que estava sendo assistida por milhares de espectadores em seu discurso de agradecimento pelo prêmio, para alertar e incentivar a luta das mulheres pela igualdade de direitos entre gêneros: “A todas as mulheres que deram à luz, que pagam seus impostos e que são cidadãs desta nação, lutamos pelos direitos de todos os demais. Já é hora de termos de uma vez por todas o mesmo salário (dos homens) e os mesmos direitos para as mulheres dos Estados Unidos da América”.

Patricia Arquete — Oscar 2015

A lista de atrizes de Hollywood que têm protestado por receber salários mais baixos que seus colegas do sexo masculino não para por aí. Jennifer Lawrence, Gillian Anderson, Meryl Streep e Jessica Alba são algumas das celebridades que já manifestaram publicamente sua insatisfação pela grande diferença entre seus salários e o de seus companheiros (atores) de cena.

No ano passado, antes da estréia da quinta temporada da série House of cards, a atriz norte-americana Robin Wright, que interpreta Claire Underwood, deu um ultimato aos diretores da ficção para que seu salário fosse equiparado ao do ator Kevin Spacey, que interpreta seu marido na trama:

House of Cards — Kevin Spacey e Robin Wright

“Estive olhando as estatísticas e a personagem Claire Underwood foi mais popular do que Frank por um período de tempo, e pensei em capitalizar isso. Então, eu disse a eles: ‘é melhor vocês me pagarem melhor, ou eu vou a público”.
Mesmo depois dessa exigência, Robin revelou a revista “Rhapsody” que o pagamento equivalente nunca aconteceu.

Mulher Maravilha — Gal Gadot

A recente publicação sobre salário de Gal Gadot no longa “Mulher-Maravilha” ser 46 vezes menor que o de Henry Cavill em “O Homem de Aço”, retomou a discussão sobre a disparidade salarial entre astros do sexo feminino e masculino em Hollywood.
Tal fato se torna ainda mais intolerável uma vez que, nenhum outro longa de herói teve bilheteria semelhante em 15 anos nos Estados Unidos. Além disso, os produtores e distribuidores da Warner Bros acreditam que um dos fatores do grande sucesso do filme está na protagonista feminina forte e destemida, que é um diferencial em relação às outras produções de super-heróis.

Estudos feitos pela New York Film Academy, mostram a cruel desigualdade entre gêneros no cinema, dentro e fora das telas. Mesmo com o público feminino responsável pela compra de 50% dos ingressos em sessões nos EUA, somente 10,7% dos filmes analisados possuíam um elenco equilibrado de homens e mulheres. Nos bastidores esta proporção é ainda maior: são 5 homens para cada mulher trabalhando no cinema.

Dados retirados de matéria publicada na Revista Super Interessante — Dez/2016

O fator idade é um agravante ainda maior para as mulheres. A média de idade entre os atores mais bem pagos é de 46,5 anos, enquanto entre as atrizes esta média cai para 34,8 anos. 
Quando o critério analisado é a nudez em cena, identificou-se que 26% das atrizes são expostas, enquanto o número entre eles é de somente 9%.

Outro estudo interessante sobre o tema foi feito pelo Google juntamente com o Instituto Geena Davis e pesquisadores de engenharia da Universidade do Sul da Califórnia. Eles desenvolveram um software para identificar o gênero das falas dos personagens nas produções cinematográficas de Hollywood, com o objetivo de analisar a presença das mulheres nas mesmas. Foram adotados critérios como tempo em cena das personagens femininas em relação aos homens e a duração das falas de cada um deles, com base nos 100 filmes de maior bilheteria nos EUA entre 2014 e 2016. A porcentagem do tempo de exposição em tela foi calculada com base na duração de cada filme, e a de fala, de acordo com tempo total de fala dos personagens.

Constatou-se que o tempo das atrizes na tela é de apenas 36%, e o tempo de fala das mesmas é de 35%. Estes números indicam a baixa participação feminina nos filmes:

Dados retirados de matéria do Jornal Nexo — Maio/2017

Os números apresentados comprovam que a indústria cinematográfica reproduz nossa sociedade machista, não apenas em seu conteúdo produzido e apresentado nas telas, mas também na forma como a divisão social do trabalho no cinema se organiza. Assim, surge uma indagação sobre a máxima de Oscar Wild: “A vida imita a arte mais do que a arte imita a vida”?