sobre a barbie

Meu brinquedo preferido era, de longe, a Barbie. Tinha uma caixa cheia delas e até hoje não consegui me desfazer de nenhuma — mesmo que elas sejam quase iguais: cabelos longos e loiros, olhos azuis, corpo perfeito e irreal. Lembro de querer uma versão de cabelos castanhos, assim como os meus, e simplesmente não achar nenhuma assim à venda. E, mais tarde, quando as Barbies morenas começaram a se tornar mais comuns, naquelas coleções especiais, eu pensava: “ela ainda não se parece comigo”.

Por outro lado, eu espelhava muitos dos meus sonhos naquilo que a Barbie representava: ela era veterinária, jornalista, astronauta, presidente, todas as profissões eram dela. Era o símbolo da mulher jovem, independente, com uma carreira promissora, que andava pra lá e pra cá no seu conversível rosa com o eterno namorado Ken. Ainda sim, a Barbie também era noiva, cuidava dos seus bebês de plástico e, se quisesse, podia ser dona de casa e tudo bem. Claro, o seu guarda-roupa era um dos meus principais sonhos também. Ela era tudo que eu queria ser, guardava em si todas as possibilidades para o meu futuro.

Não era como as bonecas bebês, que preparavam a menina para a maternidade e vida no lar, exclusivamente. A Barbie prepara as garotas para ser o que elas quiserem — inclusive mães, se for isso que elas desejarem. Nesse sentido, a Barbie representou a mulher do século XX, que conquistou espaços antes inimagináveis e acumulou diversos papéis. Todos desempenhados em cima de um salto alto e com a maquiagem perfeita.

E é exatamente aí que a Barbie se perde.

Ao vir naquele formato único, de cintura fina, olhos claros e traços europeus, ela deixa de personificar as meninas baixinhas, gordinhas, de cabelo encaracolado que a idolatram. A Barbie não é só um instrumento de brincadeiras, mas um símbolo do nosso potencial como mulheres, como é sugerido pelo seu próprio slogan “be anything”. Mas, como alguém pode se identificar com os padrões de perfeição que a Barbie materializa? Se não somos como a Barbie, não, nós não podemos ser qualquer coisa; é o pensamento que se instala nas nossas mentes infantis.

Para mim, demorou um tempo para entender que eu não sou, nem nunca seria, linda como a mulher de brinquedo que povoava minhas brincadeiras. Simplesmente porque eu não sou uma mulher de brinquedo. Eu não fui criada a partir de plástico e moldada em cada mínimo detalhe. Eu sou feita de carne, osso, pele, de natureza. E sou linda como uma mulher real é — e isso conta muito mais do que uma beleza inventada que a Barbie tem.

Fico feliz que as novas gerações podem se ver nas novas Barbies, que trazem novas formas, cores e padrões para aquela boneca que, em muitos aspectos, foi meu objetivo de vida. Agora, ao invés de um ídolo inalcançável, como ela foi para mim, ela pode ser, de fato, a representação do seu slogan: qualquer coisa, inclusive eu mesma.

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