Hoje cheira a pipocas no metro

Hoje cheira a pipocas no metro. Os odores de todas as pessoas que me rodeiam afogam-se neste doce sentir que me afaga as narinas. Nem todos os dias sinto este cheiro, o das pipocas. Por vezes embrenho-me a pensar na quantidade de dedos que tocaram nestas paredes gordurosas. Dedos com história, cada um diferente de todos os outros. Mas, neste momento, delicio-me com um cheiro que parece ter surgido de um mundo imaginário que está a ser desenhado na mente de alguém. Será daquele senhor com barba branca mas com sorriso de criança? Os corpos que esta carruagem carrega parecem despidos. Alguns rostos estão demasiado fatigados para se expressarem. Os olhares cruzam-se, fugitivos, como se temessem adentrar-se na essência de um estranho. Somos estranhos, de facto, que se cruzam num ponto e que, na maior parte das vezes, nunca mais voltam a traçar os seus raios num círculo comum. Mas que importa isso agora, que encontrei o cheiro a pipocas doces? Será que os outros também o sentem? Ou serei apenas eu e o senhor de barba branca e com sorriso de criança?

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