Desabafo a respeito do golpe

Eu tinha por volta de sete anos quando Lula foi eleito pela primeira vez.

Na época eu não entendia porra nenhuma dessas coisas, minha maior preocupação era decorar a tabuada do 7, mas lembro como meu pai ficou emocionado com a eleição daquele homem. “Agora as coisas vão mudar”, ele dizia. E, embora eu não me interessasse um pingo por política, lembro-me perfeitamente que, dessa época para a frente, as coisas melhoraram financeiramente. Minha família conseguiu condições de pagar uma escola melhor para mim (ainda que como bolsista). Eu escutava as mães dos meus vizinhos irem em casa e falar sobre como o preço das coisas no mercado tinha caído, como as oportunidades de emprego estavam surgindo. Nada muito importante para uma criança.

À medida que fiquei mais velha, minha visão política foi sendo construída — e a isso eu agradecerei ETERNAMENTE aos meus professores de História, Geografia, Sociologia e Filosofia, que me educaram impecavelmente. Fui aprendendo o que era o capitalismo e o socialismo, aprendi, aos poucos, a História do Brasil. E fui percebendo, de forma cada vez mais clara, o porquê do meu pai ter ficado tão emocionado com a eleição de Lula à Presidência. Após tantos anos sendo controlado por oligarquias compostas pela elite branca e rica, tanto na Monarquia quanto na República, o povo conseguira finalmente eleger um governante que se importava com aqueles que mais precisavam de ajuda. Que olhou para as favelas, para o sertão nordestino, para o preto cruelmente marginalizado, para o filho do analfabeto.

Apesar de tudo isso, eu fui me posicionar definitivamente na esquerda só aos 18 anos, quando Dilma já tinha sido eleita pela primeira vez. E lembro-me muito bem o alvoroço que houve quando ela conseguiu chegar lá. Uma mulher, Presidente da República pela primeira vez! Na mesma época, eu já estava mais educada acerca do feminismo, e sabia o peso que aquela conquista tinha para as mulheres brasileiras. Podemos chegar lá. Podemos ocupar cargos de poder. Podemos, inclusive, governar um país! Apesar de não ter votado nela quando tive a oportunidade, por não concordar com muitas de suas medidas econômicas e alianças políticas, tinha esperanças de que sua reeleição, ao menos, mantivesse os direitos que as classes menos favorecidas conquistaram com tanta luta.

O meu maior choque de realidade, contudo, foi quando entrei na universidade — aliás, a jovem UFABC, onde estudo hoje, foi criada no governo Lula, juntamente com outras incontáveis universidades federais. E ali, ouvi relatos dos mais variados — um de meus amigos, criados apenas pela mãe doméstica, conseguira a vaga graças às políticas de cotas para escola pública. Um colega de laboratório, saído do sertão nordestino, antes sem nenhuma perspectiva, atualmente fazendo doutorado, com chances reais de mudar as condições de vida de sua família. Foi só aqui que entendi a importância das políticas sociais, do Bolsa Família, das cotas.

E, no entanto, hoje vejo essa realidade se afastar de nós novamente. Vejo a presidência ser USURPADA da governante democraticamente eleita pela mesma elite branca e rica de antes — mesmo que ela tenha sido inocentada de todas as acusações a ela dirigidas. Vejo o novo “presidente” (entre aspas, sim, porque nunca reconhecerei o canalha golpista que hoje nos governa como Presidente) nomear seu Ministério sem incluir um negro ou uma mulher que seja. Vejo cortes nas universidades federais, tão graves que a greve está quase cheirando as nossas nucas, cortes na saúde pública, nas políticas afirmativas para minorias. Vejo a esperança de milhões de famílias que saíram da linha da pobreza ser despedaçada por aqueles que nunca souberam o que é passar dificuldades na vida. Vejo a democracia, tão jovem e tão frágil no nosso país, ser pisada como algo sem importância, pra dar lugar a um governo conservador, cego às necessidades do povo, machista, preconceituoso e retrógrado. E isso me entristece a níveis que eu jamais conseguirei descrever.

Tenho diversas ressalvas ao governo Dilma. Mas, como ela mesma declarou em seu discurso de defesa, as únicas pessoas que podem retirá-la do governo pelo “conjunto da obra” somos nós. O povo, nas novas eleições, no nosso exercício supremo de cidadania que foi conquistado à custo do sangue de muitos, da morte de muitos, da tortura de muitos. E, hoje, a luta dessas pessoas foi menosprezada, jogada no lixo.

Minha única esperança, a partir de agora, é de que o povo não se deixe abater. Vamos mostrar a esse governo desonesto a força que temos. Vamos fazê-los tremer em suas cadeiras e mostrar que não aceitaremos, jamais, que nossos direitos sejam usurpados de forma tão desonesta quanto usurparam o governo de Dilma Rousseff. O povo não deve, jamais, temer o governo. O governo é quem deve temer — e temer MUITO- seu povo.

E antes que eu me esqueça: #ForaTemer

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