Sobre Melissa Hudson e o pesadelo da transfobia

Nota: em primeiro lugar, gostaria de dizer que em momento algum desejo invadir ou desrespeitar o local de fala das mulheres trans. Minha intenção, com esse texto, é apenas expressar minhas impressões sobre o caso da maquiadora Melissa Hudson, o qual chegou aos meus ouvidos e me gerou total indignação.

Estava eu, dando scroll alegremente no meu facebook, quando me deparo com o link de uma notícia que me partiu o coração. A maquiadora Melissa Hudson, uma mulher transexual, foi agredida na madrugada do último domingo, na rua Augusta. Segundo o site Extra, Melissa estava acompanhada por algumas amigas quando, repentinamente, foi atingida na nuca por uma garrafa de vidro. Incapaz de escapar dos agressores, Melissa foi derrubada no chão, xingada de “traveco nojento”, recebeu socos e chutes e teve seu celular e documento roubados.

“ Eram 4h30 quando recebi uma garrafada do nada. Lembro de ter caído no chão e ter ouvido xingamentos, como ‘traveco nojento’. Fui salva por um homem desconhecido, que ajudou a afastar as pessoas de mim. E, apesar de não conhecer quem me agrediu, sei que eram homossexuais.” Fonte: extra.globo.com

Não vou entrar no mérito de saber se os homens eram mesmo homossexuais, ou sobre como ela descobriu esse fato sobre os agressores. Também não vou entrar na questão da empatia que esses homossexuais deveriam sentir em relação às mulheres trans, uma vez que também sofrem com opressões que ferem e matam. Mas esse relato me fez pensar no quanto, por fazermos parte de uma minoria, pensamos que somos isentos de oprimir, ferir, humilhar. Eu, como mulher, sei que muitas vezes sou vítima do machismo — mas, por exemplo, como pessoa branca, demorei para perceber que minha posição me torna uma opressora em potencial de uma mulher negra. Aparentemente, essa percepção também falta a um bom número de homossexuais, que acham que, pelo fato de pertencerem a uma minoria, são incapazes de reproduzirem machismo, racismo e, nesse caso, transfobia.

Voltando ao assunto Melissa; a humilhação pela qual ela precisou passar naquela noite ainda não tinha acabado.

“Registrado inicialmente no 78º DP (Jardins), o caso está sendo investigado pelo 4º DP, responsável pela região onde ocorreu a agressão. No boletim, não consta o nome social da maquiadora, que foi tratada integralmente no masculino enquanto esteve na delegacia. Também não há qualquer menção sobre a possibilidade da agressão ter sido motivada por preconceito com a orientação sexual da jovem. No registro, o caso foi anotado apenas como ‘roubo a transeunte’.” Fonte: extra.globo.com

Roubo a transeunte. Roubo. A. Transeunte. Isso, meus caros, foi o que mais me indignou.

A moça foi agredida, humilhada, chamada de “traveco nojento”, rebaixada de todas as formas possíveis, e o registro anota o ocorrido como “roubo a transeunte”. Não há uma única menção à possibilidade de Melissa ter sido agredida unicamente por ser uma mulher trans. Ainda, durante todo o atendimento na delegacia, ela foi tratada pelo nome de registro, masculino. Seu nome social e sua identidade como mulher foram totalmente negligenciados — contrariando a lei estadual que obriga os boletins de agressão a registrarem o nome social da vítima e a motivação do crime, caso ele possivelmente tenha ocorrido pela orientação sexual ou identidade de gênero.

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou, em nota oficial, que averiguará a ausência do nome social de Melissa no boletim, e alega que a agressão à vítima foi devidamente documentada. Não informou as medidas que tomará com os policiais e funcionários que, durante o registro da agressão, se mostraram totalmente negligentes com a identidade de Melissa. Se o respeito pela identidade de gênero não vem nem de funcionários “superiores” (entre muitas aspas — os paulistas sabem muito bem do que sua polícia é capaz), como esperar que venha da população comum?

A conscientização social sobre identidade de gênero não pode mais esperar. Homens e mulheres trans existem e são totalmente marginalizados; não conseguem arranjar empregos, muitas vezes não são aceitos por suas famílias. Quando uma pessoa trans se forma em uma universidade, é um acontecimento — como se o fato daquela pessoa ser trans influenciasse na inteligência, na agilidade e na competência dela como estudante e profissional.

Precisamos falar sobre transfobia. E rápido, pois Melissa não foi a primeira a ser feita vítima dela — e, até conseguirmos implantar essa consciência igualitária na sociedade, ela certamente não será a última.

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