Sem profeta nem principal

Carolina Motta
Sep 4, 2018 · 3 min read

Uma análise crítica da ciência e da antropologia num contexto de tragédia e da consequente necessidade de reinvenção.

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A antropologia é, essencialmente, a ciência mais altruísta e empática e exatamente por isso, talvez a que a gente mais precise atualmente. Eu desconheço qualquer outro campo do conhecimento que se preocupe tanto e traga reflexões tão potentes no sentido de questionar nosso sociedade doente buscando o conhecimento e a visão de mundo de outras culturas. Assim como qualquer outra forma de pensamento que queira se encaixar no paradigma racional e científico ela tem problemas.

Exatamente por isso eu não vou ficar babando ovo pra pesquisa e pra ciência quando eu conheço tão bem esse universo extremamente problemático, contraditório e hipócrita; mas também não vou falar que ele não deveria existir, porque a importância dos estudos que saem dali é indescritível! O foco é essa relação entre os antropólogos e a antropologia que produzem o conhecimento ao mesmo tempo que produzem a si mesmos.

O que fazer diante disso? Há quem acredite que dá pra mudar a partir de dentro e ir aos poucos destruindo as barreiras. Eu chamo essas pessoas de reformistas e também não vou negar que isso seja importante, mas tendo passado por uma infinidade de situações de misoginia plenamente denunciavéis, além de casos de deterioração da minha saúde mental e de TANTAS outras pessoas (cada uma tem uma história e situações específicas pra contar) o mais provável é que eu adoeça e morra antes de conseguir realizar qualquer mudança.

Outra possibilidade então é fazer isso de fora. Tendo conhecimento de como esse sistema opera - ensina-se a crítica, mas obriga-se o enquadramento e aprisionamento em linhas de pesquisas, luta-se contra opressões reproduzindo-se relações de poder violentíssimas, ignora-se ética sem desapegar da neutralidade e afastamento necessário dos pesquisadores em relação ao seu objeto de pesquisa, admite-se a dimensão cultural e subjetiva das pessoas, defende-se a valorização do ensino e da pesquisa tendl um imenso descaso pela didática e pedagogia que parte dos próprios professores. Isso fez com que eu desistisse da antropologia e deixou um buraco no meu coração, além de consequências psicossomáticas que eu não desejo pra ninguém - é possível partir da crítica e direcionar-se para a produção de conhecimento em outros paradigmas.

Um paradigma que envolva, em primeiro lugar, um equilíbrio entre teoria e prática dissolvendo a masturbação mental que é a fonte de hipocrisias; a preocupação com a saúde física e mental das pessoas; que questione verdadeiramente a "observação participante"; que não reproduza machismo, racismo ou qualquer outra forma de opressão, entre outras coisas sem que seja necessário optar pela militância old school igualmente adoecedora. Que a gente tome exemplos como os cursos de Foucault e Deleuze no Collége de France, mas mais do que isso a oralidade das comunidades tradicionais.

Que a gente possa nos libertar dessa situação sofrível de colonizado que inveja o colonizador e realmente trocar conhecimento, partilhar reflexões, impulsionar vivências e criar conexões a partir da subjetividade. Em resumo, que a gente possa iniciar um novo ciclo a partir de uma conclusão que não pretende finalizar nada, mas ao contrário, ser um ponto de partida: que a gente dissolva qualquer verticalidade entre antropólogos e nativos (inclusive questionando esses termos se for necessário) e que comece a dividir os mesmos espaços e partilhando das mesmas oportunidades (o que envolve recusar ou partilhar espaços de privilégio) já que qualquer conhecimento antropológico é necessariamente produzido em conjunto.

Carolina Motta

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Questionando e destruindo (minhas) fronteiras.