Marketing Internacional e Fordlândia — a história resumida em 5 fatos

Em busca de vantagens econômicas para a produção de seus carros, Henry Ford viu no norte do Brasil uma oportunidade para solucionar os problemas em relação à aquisição de borracha. Começava ali o sonho de Fordlândia, uma cidade tipicamente americana construída no Pará, ao final dos anos 1920.

Passados mais de 70 anos desde o final desta grande aventura, em 1945, vale a pena destacar os cinco principais fatos que resumem a história de Fordlândia, no intuito de analisar os erros estratégicos e aprender boas lições de marketing internacional.

Fato 1: Ford embarca para o Brasil em busca da borracha

Henry Ford foi pioneiro na fabricação de carros em série. No início do século XX, Ford encontrou seu primeiro obstáculo para continuar com sua eficiência na produção de automóveis: o monopólio inglês no mercado internacional de borracha. A Inglaterra dominava a produção desde o final do século XIX, quando implantou a cultura de seringueiras no sudeste asiático. Isso gerava para Ford um custo mais elevado de produção, com demora no recebimento dessa matéria-prima.

Ford vislumbrou no Brasil uma grande oportunidade para produção de látex e de borracha. Ao final dos anos 1920, ele adquiriu um terreno de 15 mil Km² às margens do Rio Tapajós, no Pará, pagando o equivalente a 3 milhões de reais em valores atualizados. Ele carregou dois navios com tudo o que seria necessário para construir a usina e uma cidade para sustentar a extração de látex e a fabricação de pneus em terras brasileiras.

Fato 2: Uma little town americana no meio da floresta

Em 1927, iniciou-se a construção de Fordlândia, com casas e ruas especificamente desenhadas segundo o modelo americano de arquitetura e paisagismo. Áreas extensas da floresta amazônica foram derrubadas e queimadas para dar origem a uma plantação que chegou a ter 1,9 mil seringueiras.

Atraídos pela oportunidade de trabalho, e pela boa infraestrutura local, que contava com escolas e hospitais de qualidade superior, milhares de brasileiros migraram para o interior da floresta, totalizando mais de 3 mil trabalhadores ao longo dos anos.

Fato 3: Os anos de prosperidade

Além da plantação de seringueiras e da fábrica de pneus, Fordlândia possuía uma completa infraestrutura, com saneamento básico, eletricidade e distribuição de água. Havia não apenas escolas e o hospital, mas também um clube recreativo.

Os trabalhadores recebiam seu pagamento quinzenalmente e em dinheiro, o que era uma grande vantagem para aquela época. A notícia da prosperidade se espalhou, atraindo trabalhadores estrangeiros, que chegaram da América Latina e até mesmo do Japão.

A plantação de seringueiras crescia, com mudas vindas de navio para acelerar a produção de látex.

Fato 4: O início do fim

Com o passar do tempo, em meados dos anos 1930, começaram a surgir os primeiros problemas devido à falta de planejamento estratégico e ao desconhecimento sobre a geografia e a cultura local.

Muitos trabalhadores sem experiência foram contratados, resultando em uma força inapta para o trabalho. Além disso, as regras trabalhistas e sociais impostas aos trabalhadores causaram insatisfação, desmotivação e revoltas, fazendo da rotatividade de pessoal uma constante.

Além disso, as seringueiras plantadas por Ford foram afetadas por pragas devido ao modelo de monocultura, comprometendo toda a produção. O surgimento da borracha sintética também foi um agravante para os negócios de Ford, que não conseguia competir nem mesmo com o látex produzido pela Inglaterra.

Fato 5: Fordlândia, uma cidade fantasma

Com estes problemas, Ford tentou reerguer seu empreendimento em uma nova cidade, chamada Belterra, construída já em 1945. Contudo, o novo projeto foi cancelado pelo presidente da empresa, Henry Ford II, devido às grandes dívidas trabalhistas e à falta de mão de obra qualificada. Encerrava-se, então, o sonho de Fordlândia.

O governo brasileiro assumiu as dívidas trabalhistas em troca das obras e da infraestrutura deixadas pela empresa às margens do rio Tapajós, indenizando a Ford em 250 mil dólares. A maioria dos trabalhadores deixou a cidade em busca de novas oportunidades de trabalho e, aos poucos, Fordlândia foi se tornando deserta, abandonada pelo seu idealizador e sem mais nenhuma razão para existir.

As lições de Marketing Internacional

A primeira lição a ser tirada da utopia de Henry Ford foi a análise rasa da crise internacional no mercado da borracha. No início século 20, o Brasil já vivia o apogeu da produção de látex e a Inglaterra tinha pleno domínio dos preços.

Não houve um estudo a longo prazo para definir em que medida a produção no Brasil poderia de fato competir com o monopólio inglês. Ford vislumbrou uma solução para economizar na fabricação de carros e agiu de forma precipitada, sem considerar todos os desafios e riscos da ida para o Brasil.

Em segundo lugar na sucessão de decisões equivocadas, destaca-se a falta de conhecimento geográfico sobre a área a ser explorada. A opção pela produção de látex em larga escala, sem preservar as outras espécies da flora local e sem planejamento para combater as pragas, acabou por causar o colapso na produção, que não sobreviveu ao modelo de monocultura.

Por fim, talvez a lição mais importante para empresas que desejam se inserir em outros países: a imposição da cultura norte-americana aos trabalhadores de Fordlândia, não apenas em relação à rotina de trabalho, mas também na alimentação, no formato das casas e até no comportamento dos moradores. Tal opção estratégica causou descontentamento, baixa produtividade e protestos dos trabalhadores, inviabilizando as relações de trabalho.

Conclusão

Na contemporaneidade, as empresas se vêem frente a uma realidade na qual conhecer e atuar em um ambiente internacional torna-se parte fundamental das decisões estratégicas visando a sobrevivência no mercado.

Ser uma empresa global exige a capacidade de identificar e mobilizar o conhecimento para criar inovações de alcance mundial. Para isso, é preciso a compreensão da empresa como um sistema aberto, que interage no contexto em que está inserido provocando mudanças e também sendo provocado a mudar.

Com o exemplo de Fordlândia é possível compreender o quanto a dimensão da pesquisa e do planejamento estratégicos é fundamental para o sucesso nos projetos de internacionalização. Ignorar os traços da geografia e da cultura local frente aos desafios do mercado internacional é o maior erro a ser evitado tendo em vista a conquista do sucesso em marketing internacional.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Carolina Butignoli Cunha’s story.