Sempre vai haver um espaço.

Carolina Carvalho
Nov 6 · 3 min read

Sempre vai haver um espaço.

Acredito que, talvez, ele chegue a durar para sempre. Um canto doído, azul, empoeirado e sem nome porque foi arrancado tão bruscamente que mal se lembra de onde veio. Uma quina de mesa que bate no peito e deixa a gente completa e inteiramente sem ar.

Lembro quando era pequena que li em algum lugar que ter uma alma gêmea não significava ficar ao lado dela até o fim daquela existência tão terrena. Na minha mente de poeta que se recusa a deixar ir, desacreditei. Refutei até o último fio de cabelo porque a possibilidade daquela frase tão clichê ser real me causava pânico.

E não, não falo de almas gêmeas românticas, sem os beijos na chuva ou essas coisas. Falo do amor e somente dele, em todas as suas formas, cores, toques. Falo das cinco almas que caminharam comigo por anos e, acredito que, alguns milênios por esse universo. Milênios porque uma conexão igual aquela não poderia se tecer em uma vida só. As amei, amo, em meu kairós (valeu, Rubem Alves!), as sinto e senti transpassando meu corpo físico tão pequeno na época, cheio de medos pelo mundo, carregando coisas que eu mal sabia o que eram, mas sabia que elas entendiam.

Rodei um bom tanto em círculos enquanto decifrava a tamanha bagagem que havia me sido dada. Esperneei em gritos, soquei as paredes mais de uma vez, fugi, fui embora de casa — e também fui acolhida por uma dessas almas — tentei ser o vento.

Cantei. Descobri dentro, nas notas, cordas, semi-tons, que as malas se tornavam mais leves ao serem levadas ao lado da canção. Mergulhei no abismo, costurei as asas que criei em minhas costas e retornei à superfície. Mas, ah, o quão transformador é costurar um par de asas loucas na pele crua? O quão ensurdecedor é o processo de se virar do avesso?

Até hoje não sei contar. O abismo me cuidou e abriu, porém também me vendou os olhos. Me tirou um tanto do amor. Me tirou a calma. Me tirou até mesmo o zelo com o que parecia não compreender o novo eu.

Foi assim que as perdi.

Queria que minhas arquiteturas fossem maiores que toda e qualquer palavra, quis ser a menina turrona novamente. Mas sei que também não posso me culpar por tanto. Foram anos ouvindo que deveria servir de tapete para homens, familiares, “iguais”. Quando aprendemos que podemos ser pássaro, onda, furacão, não desejamos nunca voltar. Esquecemos que ouvir, realmente ouvir e mudar a vista, não nos faz menos liberdade. Não é algema. As queridas armadilhas de ego, mas não só isso.

Enxotei o amor da minha casa em uma decisão só, uma batida de porta, um escancarar de olhos ainda medrosos. As cinco almas saíram, sem falar, sem direito a retorno. Um corte seco, mas não limpo de todo sangue que veio depois.

Sei que elas também tiveram sua parcela de erro, e que no momento meu corpo se recusava a ter uma reação mais branda e não devo me punir por isso, porém, ah, se pudesse voltar no tempo. Conversaria com a adolescente turrona, contaria como é o futuro e o quanto a falta comeria tudo. Mas, me conhecendo muito bem, não adiantaria. E, sabe, melhor não mexer no passado. Aquelas loucuras científicas de causar catástrofes ao se mexer no que já está feito.

As mandei embora sem pensar, e por muito tempo segui não pensando. Tudo parecia certo, fácil, novo. Até a dor chegar.

Veio leve, como os dias de chuva fina e gelada, corroendo um pedaço do meu peito. Não percebi, deixei chover e hoje mora um lago no lado esquerdo de mim.

Deixo as luzes dele acesas, claras, chamativas, na tentativa das almas retornarem e criarem casa novamente. Deixo as portas sem fechaduras, escancaradas no calor e frio. Deixo minha alma esperando, cantando aos sete ventos. Deixo minha voz em prontidão.

Mas sempre vai haver um espaço. Sei disso. Sei do tempo passado.

Mas como toda poeta acredito exaustiva e incansavelmente na vida, no amor, nos reencontros inesperados pois os conheço tão bem.

Sempre vai haver um espaço, mas espero que um dia não haja mais. Espero o retorno das cinco almas, dos cinco risos, das cinco flores espalhadas pela cidade.

E assim caminho, caminho e caminho.

Peito de andorinha que voou para longe demais.

o transparecer.

Araras, 06/11/2019. 19:22

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