Engajamento my ass
Ah, não dá. Hoje eu até vi um vídeo bem interessante do Santo Caos, uma empresa articulada que se define como “consultoria de engajamento”. Tá legal. Engajamento é uma das palavras da vez, vende que é uma beleza, inclusive achei inteligente a jogada de se autodefinir como tal para tentar se destacar no oceano de todas as outras empresas especializadas em comunicação interna, mas, para mim, é claro como o mar do Caribe: esta é mais uma daquelas ondas de nomenclaturas que nascem e crescem na mesmo proporção de tamanho e importância com que morrem. De repente, um dia, todo mundo simplesmente deixa de falar disso. Como se nunca tivesse existido. Como se tivesse sido uma grande bobagem acreditar naquele tal de engaj… qual era o nome mesmo?
Quando alguém me diz que comunicação interna é engajamento eu me lembro de um chefe que tive. Ele sim era esperto. Poderia ter montado uma franquia de borracharia, se quisesse, e seria uma das melhores borracharias do País. Ele sabe aproveitar uma onda sem precisar, necessariamente, acreditar nela. Ele bota um peão para surfar, na linha de frente, até o ponto em que esse peão, que defende fervorosamente uma onda que inevitavelmente vai passar, porque todas passam — por definição uma onda sempre traz outra atrás -, um dia é substituído por outro peão, que vem trazido por quem? Pela onda de trás, claro. E ele integra com genialidade esses discursos, navegando entre mundos e entre ondas como quem está por cima, no skysurf, rindo, vendo tudo, mexendo com tudo, adaptando-se a tudo, mergulhando às vezes, só pelo prazer de sentir um pouco mais do material.
Eu entrei lá sabendo que ali seria o melhor lugar para se trabalhar enquanto eu estivesse na onda do storytelling. Ainda bem que saí antes de chegar outra. Mas eu também não defendo discursos sobre onda nenhuma, nunca achei meu trabalho coisa lá muito importante, eu já falei, importante é agricultura, então tampouco acho tão relevante assim o trabalho que exerço hoje, de comunicação interna. Sou do tipo que rio, faço de mim as minhas piadas, para só então me estender aos protocolos, aos modismos, às crenças em coisa nenhuma, aos discursinhos baratos, às práticas vazias. Eu noto que meu desprezo desperta raiva nos mais crentes, mas continuo descrendo e achando tudo muito tragicamente engraçado, como uma verdadeira gnóstica.
Engajamento entra nesse contexto. Eu tenho vontade de rir quando alguém diz que comunicação interna é engajamento, mesmo que sejam meninos bonitinhos, que escrevem bem e levantam a bandeira da velha Usp, montando vídeos super articulados de tendências mundiais. Blah. Nem mesmo uso essa palavra aqui dentro. Falar de engajamento em uma empresa é a mesma coisa do ser humano tentar entender o universo. Ou, melhor, como diria sabiamente meu marido: é a mesma coisa de uma célula tentando entender o organismo em que vive. Simplesmente não dá.