Meu emprego faz a empresa ganhar milhões
Pelo menos esta é a visão do meu tio. Em uma discussão sobre como a babá de minhas filhas deveria receber muito mais dinheiro do que eu mesma, trabalhando em um escritório, afinal, seu trabalho é bem mais relevante do que o meu, fui rechaçada com a habitual maneira com que fazem em família. Fervorosamente. “Se você, em seu trabalho de comunicação interna, conseguir mobilizar o cara a trabalhar 1% a mais que seja, considerando todos os empregados que a empresa tem, pode ter certeza: a empresa já tá ganhando milhões a mais. Sua babá não faz isso”.
Ok. Devo admitir que me falta pensamento concreto desse tipo, em cadeia, capitalista, cascateado. Talvez porque o que me guie seja o sentimento. Eu sinto que o trabalho dela é algo que não se bota preço, intangível. E nós só temos esse tipo de trabalho em um país assim, desigual, injusto, em que o sistema não funciona, mas isso é papo pra outro post. A babá das minhas filhas não me faz ganhar milhões, de fato, ela me faz ganhar paz de espírito, tranquilidade, segurança, e contribui para me deixar viver a vida que desejo e fazer minhas filhas não ficarem na escola período integral, o que considero importante. Ela me ajuda a formar cidadãos para o mundo, apoiada em valores que desejo transmitir. Ela cuida, dá amor, carinho, na minha ausência. Ela me permite trabalhar e ser útil para mais outra coisa além da maternidade, ainda que isso também cause conflitos infinitos, papo pra outro post.
Sem contar o exagero da frase, meu tio pode até ter razão em alguns aspectos financeiros, de mercado, de giro da economia — não espero nada menos de alguém que é empresário também. Mas mesmo depois de ouvir essa explicação, eu fico com a minha. A babá de minhas filhas deveria ganhar mais do que eu. O que me leva a outra constatação: eu não teria babá, obviamente, por questões financeiras.
Todas as entrelinhas deste post dariam margem a outros posts. Acho que fiz bem em criar um blog, ainda que não faça ninguém ganhar milhões.