O mensageiro do apocalipse
Hoje encontrei uma amiga de trabalho no corredor. Num bate papo rápido, ela me contou uma história bem típica, tradicionalíssima no ambiente corporativo: uma amiga em comum foi demitida no período de experiência em uma empresa. Ok quanto à demissão. O problema é sempre o mensageiro do apocalipse.
A demissão traz sensação de morte. É triste e frustrante. Se você nunca foi demitido antes, então, pode ser um verdadeiro trauma. Causa dor, a pessoa chora ao se despedir, sente-se envergonhado, pra baixo, incompetente, rebaixado à meleca no carpete da firma, enquanto todos fazem cara de pena de você, mesmo aqueles que nunca sequer falaram com você. Mas tem umas figurinhas… que nunca deveriam ter sido nomeadas gerentes de qualquer coisa, já que, por si só, não possuem o menor tato para gerir pessoas.
Foi o que aconteceu neste caso específico.
A menina foi chamada numa salinha. A mensageira do apocalipse começa a vomitar o texto decorado: “infelizmente nós vamos estar descontinuando seu contrato. Agradeço o tempo que você esteve aqui, mas não atendeu às nossas expectativas. Então, por favor, pode pegar suas coisas e ir embora”. “Peraí. Mas o que aconteceu, eu posso ter um feedback de qual era a expectativa em relação ao meu trabalho, o que vocês esperavam de mim, como eu poderia ter melhorado?”. “Não, a decisão já foi tomada”.
Primeiro, não foi isso que ela perguntou. A anta estava tão preocupada com o texto decorado que não se ateve à pergunta. Ela só queria a droga do feedback. Ela tinha esse direito.
Claro que tem hora que o mensageiro é alguém sensível, que tem delicadeza, preocupação, peso na consciência e que, depois, nem consegue dormir quando tem que demitir alguém. Conheço líder que considera um verdadeiro fardo ter que demitir alguém. São raros, porque a maioria acredita no discurso “tem que ser assim” como forma de se proteger, até, mas no íntimo também acredito que seja só uma maneira de lidar com o problema e escapar do luto, porque dói.
Nessas horas eu fico imaginando a pessoa por dentro. Fico imaginando se ela quis sumir dali, bater na moça, se quis chorar, se quis jogar o computador pela janela, tudo com os olhos bem abertos, enquanto encara a mensageira do apocalipse, naquele silêncio contido, inadequado, envergonhado, triste.
É. Na minha ideologia, ninguém é substituível. Na prática, somos — e ainda bem, diga-se de passagem. Se não fosse assim, acho que ninguém ia pra frente. Como um conhecido já me disse, é na crise que a gente melhora. Na bonança a gente se acomoda. E quando digo “ir pra frente” não me refiro à carreira, não, afinal, faço jus ao blog que criei. Digo evoluir espiritualmente. A gente tá aqui pra isso mesmo. De novo, não — “aqui” — empresa. Aqui na vida. Onde mais?