O poder do sotaque
Outro dia, voltando ao trabalho, na hora do almoço, ouvi na rádio USP uma entrevista com um estrangeiro que tinha escrito um livro, parte da editoria “Abrace uma carreira”. Antes que achem que eu acompanho esta editoria, vou me defender — ouvi por acaso porque gosto da rádio. Não é uma editoria que vai me fazer desgostar da emissora. Mas, depois desta entrevista, prometo trocar de estação às quintas-feiras, das 13h às 14h.
Antes de mencionar o conteúdo da entrevista, vale mencionar o sotaque espanhol do entrevistado, já que foi isso que me fez parar na estação em vez de ouvir música. Em seguida, ao perceber meu padrão, pus-me a pensar nesse repentino interesse pela entrevista, só por causa do sotaque do cara. E cheguei à conclusão que somos fruto deste País tupiniquim, não daquele de Policarpo Quaresma. Em outras palavras, quem tem sotaque, neste país, já sai na frente em qualquer entrevista, reunião, palestra, etc. Chama a atenção pelo diferente, mas muito mais que isso, acaba sendo tomado por mais interessante, mais inteligente, mais culto, mais rico. O sotaque forma arquétipos. Deve ser nosso lado colônia, nossa baixa autoestima falando mais alto, como se o estrangeiro fosse um oráculo. Então, se algum estrangeiro residente no Brasil estiver lendo este post, minha dica é que se mantenha fiel ao seu sotaque. Faça como o português Eça de Queiroz disse, que “um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra. Todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro”. Ele era um patriota, com certeza. Meu conselho, não tão louvável quanto o dele, é puramente mercadológico.
À parte de seu sotaque, o entrevistado falava sobre marketing pessoal e como as pessoas devem seguir o que o mercado prega. Acho que foram essas as palavras que ele usou: “você tem que jogar com as regras do mercado”. Basicamente ele falava de redes sociais e a importância de ter uma imagem adequada em todas as suas redes integradas, atuando como uma estratégia de comunicação e marketing para se colocar no mercado de trabalho. E eu, sem redes sociais, nem mesmo linkedin, só com um recém-criado blog à mão, ouvindo.
Minha intenção, aqui, não é agir como muitos jornalistas e usar um trecho de uma entrevista fora de seu contexto e, portanto, fazer deste post uma avaliação injusta do que estava em discussão. Devo admitir que não ouvi a entrevista inteira, nem mesmo sei a que livro se referia ou quem era o entrevistado — não procurei saber, inclusive, porque quero me manter à impressão original. Meu ponto de análise é a frase: “você tem que jogar com as regras do mercado”, dentro do contexto de que a pessoa deve agir de acordo com o padrão para manter sua empregabilidade.
O mercado, assim como as empresas, tem ciclos. Os jargões corporativos têm ciclos. Haja vista networking, comunicação integrada, interindependência, resiliência, storytelling, afetividade nas relações, branding, entre tantos outros em voga. E, como todo ciclo, uma hora acaba. Se você não tiver sua marca registrada, seu modus operandi, que o diferencie dos demais bois da boiada, dentro daquilo que você faz, a chance de cair em desuso é tão óbvia quanto aparelhos eletrônicos se tornam obsoletos. Isso sem mencionar a obsolescência programada — nunca se sabe se uma onda foi criada para morrer na praia dali a apenas um ano.
Meu ponto de vista é que tudo que vem de fora para dentro não dura. As maiores riquezas do mundo foram construídas de dentro para fora. Duvido que Gandhi acreditasse que deveria seguir o que propusera o “mercado” colonial da época. Duvido fielmente que todos os artistas, filósofos, poetas, compositores, políticos e pessoas que marcaram sua época seguissem qualquer tendência.
D-U-V-I-D-E-O-D-Ó.
Para o bem e para o mal, os destaques da humanidade em todos os assuntos, por mais que mesclem e agreguem teorias e conhecimentos anteriores, vêm de dentro para fora.
Já esse tipo de editoria e entrevista transmitem fórmulas prontas, mas, de novo, vamos lá: não existem fórmulas prontas que durem tempo suficiente para você colher frutos diferenciados em sabor e, por que não, em valor.
Na agricultura, estamos hoje no fim do ciclo das seringueiras. Seringueiras demoram anos para crescer e permitir a extração da borracha. Ao ponto que se você pegou o bonde, em vez de criá-lo, pode se beneficiar muito pouco deste ciclo, talvez apenas no finalzinho ou mesmo terminar totalmente falido, porque ciclos de agricultura e agropecuária, se antes duravam de quatro a cinco anos, hoje chegam a durar menos de três anos. Como sei disso? Eu assisto ao Globo Rural, lembram-se?
Penso que na vida é a mesma coisa. Os ciclos, as gerações, com exceção da adolescência, que tem começado antes e terminado mais tarde (pois é), tudo está sendo encurtado, tudo acontecendo mais rápido. Pegar o bonde é garantia pontual de resultado a curto prazo.
O que nos deixa com duas escolhas, neste caso: seguir padrões ou criar padrões. Se você for aquele cara que se incomoda em pegar carona em uma onda já pronta, como eu, melhor criar a sua.