Ovos de ouro numa única cesta
Tem um assunto que mexe comigo há bastante tempo. Essa dependência emocional que existe entre funcionário-empresa, coisa que acontece mais com as gerações anteriores à nossa (Y), como se o trabalho atual fosse a única opção em vida para aquele indivíduo.
Quem, hoje, tem menos de trinta anos, não se apega a isso. É bem ao contrário, na verdade. Costuma deixar a empresa antes de colher os frutos de seus próprios projetos, em ciclos que duram menos de três anos. Por isso se fala tanto em retenção de talento — termo que, aliás, não poderia ser pior. Retenção? Por favor… Vamos lá: re.ter v.t.d. 1. Ter ou manter firme; segurar com firmeza. 2. Guardar em seu poder (o que é de outrem). 3. Conservar, manter. 4. Impedir o movimento, fluxo, ou a saída de; deter.
Deu para ver como as empresas estão perdidinhas? A não ser que elas queiram se comparar com prisões, essa coisa comando-controle, subordinado-insubordinado, não tem cabimento usar um termo desses. Elas não fazem ideia do que fazer para segurar essa gente nova. Elas estão, definitivamente, ficando pra trás.
Eu, na comunicação interna, tento. Eu juro que tento ajudar empresas a sairem dessa. Mas minha voz é nada mais que um breve sussurro no mar de processos irrefutáveis. Às vezes fico tão pessimista ao ponto de achar que o trabalho de comunicação é recreação. Então, como não sou oráculo, o buraco é bem mais embaixo e, por isso, não tenho muita ideia de como as empresas vão conseguir segurar seus talentos, vou voltar ao tópico das gerações, que é mais fácil.
As pessoas das gerações anteriores à nossa estão mais sujeitas à dependência. Eles têm essa ideia equivocada de que não são capazes de fazer mais nada a não ser trabalhar ali, naquele lugar, sobretudo quem possui mais de 20 anos de empresa. É quase uma vida inteira fazendo as mesmas coisas. Assim, qualquer pessoa sã pode vir a se questionar se tem talento para fazer outra coisa senão aquilo. Vira um vício, uma rotina, um sofrimento e, pior, um medo. Um medo que os faz calar em vez de falar. Que os faz não assumir erros. Um medo que os faz patrões de estagiários e assistentes. Um medo que os faz criticar o trabalho desses jovens, como se não houvesse espaço para ser e pensar diferente. Um medo que os faz duvidar de quase tudo antes que aconteça. Que os faz puxar o saco do chefe. Ficar calados quando deveriam falar. Não compartilhar informação. Um medo que faz ter medo, medo, muito medo, do monstro da demissão.
Não à toa várias pessoas com muitos anos de empresa, quando demitidas, penam para se recolocar. Muitas entram em depressão. Elas nem mesmo param para pensar que poderiam ser demitidas, imaginem só. Algumas se consideram essenciais! Insubstituíveis! Tamanha ingenuidade só pode ser combatida com a seguinte afirmação: nem o presidente está livre de ser demitido. Estamos todos, temporariamente, trabalhando em alguma empresa. Quanto antes aceitarmos que nossos talentos, na maior parte do tempo, são subutilizados nas empresas, e que sempre podem ser aproveitados de outra maneira, melhor. A maioria esmagadora dos profissionais pode contar nos dedos os momentos em que teve chance de dar aquele super salto, em direção ao autodesenvolvimento. O dia a dia é duro mesmo, mais do mesmo, chato, até chegar aquele outro momento lindo, em que você pode mostrar a que veio. Aí a gente nem liga se não almoçou. Esquece até de beber água. Reconhecer isso tudo facilita na hora de entender que nosso trabalho é um meio, uma passagem, uma forma de ganhar algumas coisas em troca. Talvez os “engajados” discordem. Pelo menos, até serem demitidos.
Enfim, meu ponto é: temos talentos que são ovinhos de ouro. Jogar tudo numa única cesta é, no mínimo, um desperdício.