Vencidos pelo cansaço — a inveja do olhar fresquinho
Acabou de acontecer. Algo fatídico. Minha nova gerente virou para mim e disse:
Mas, Carol, isso não é conteúdo adequado para comunicação corporativa. Por que a gente vai comunicar isso?
Fiquei a escutar grilos. Silêncio absoluto. Permaneci parada, olhando para a cara dela. Se eu tivesse fora de mim, olhando para mim, poderia ver minha cara de babuíno.
Ainda bem que, nos segundos que se seguiram, tomei coragem e disse, pausadamente, como quem reflete ao mesmo tempo em que fala:
Eu sei. Eu concordo com você. Eu tinha essa visão quando entrei aqui. E acabei sendo voto vencido.
Tolice. Qualquer coisa que poderia dizer seria tolice, ainda que verdade. Talvez eu devesse ter comemorado o fato de, enfim, ter uma gestora que pense igual a mim, certo? Errado. Eu estava muito ocupada pensando no que tinha acontecido comigo. O frescor do olhar dela, dentro de mim, borbulhou em denúncia. Fiquei velha. Cansada. Sim, eu pensei exatamente como ela quando entrei na comunicação interna. Eu disse isso. Eles não concordaram. Eu argumentei. Lutei com todas as forças. Peguei fama de difícil. A diretora de RH da época me enviou um e-mail me dizendo ser “subversiva”, nas palavras dela, algo como se meus textos fossem um “convite à insubordinação”. Não perdi o emprego, mas perdi alguma coisa bem mais importante. Eu fiquei.