Munari: livro ilegível e pré-livro

Bruno Munari revolucionou a linguagem do livro quando o encarou como objeto capaz de comunicação, independente dos textos. O que era comum, segundo o autor, era avaliar a importância do livro através do seu texto literário e debater o seu gênero, sem considerar a potencialidade dos outros elementos que definem um livro, como: papel, encadernação, tipo de tinta,caracteres gráficos etc. Exceto no caso de edições especiais, o papel do livro era utilizado apenas como suporte do texto, e não para comunicar algo além da obviedade de seu uso.

Munari defende que a experimentação é o caminho para conhecer as possibilidades de comunicação dos materiais que compõem um livro. Assim, nasce o termo “livro ilegível”, que o autor usa para definir seus projetos de livros que utilizam apenas da visualidade dos recursos gráficos, sem utilizar nenhum texto.

Livro ilegível, por Bruno Munari

Munari relata a dificuldade de aceitação por parte das editoras nesse tipo de material, que recusavam os livros sem texto. O livro “Na noite escura”, editado em 1952 foi recusado por diversos editores porque não apresentava nenhum texto. Depois de editado, foi publicado em diversos outros países e línguas.

No Brasil, o livro foi publicado pela Cosac Naify

Os primeiros livro ilegíveis, feitos com diferentes materiais, foram expostos pela primeira vez em Milão, na livraria Salto, em 1950, em exemplares feitos à mão. Um desses livros foi editado pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, em 1967.

Munari defende que o interesse pelo livro e pela leitura começa na primeira infância, quando o individuo começa a formar sua inteligência. Portanto, segundo o autor, se a criança é exposta à livros que geram apenas aborrecimentos, as chances dela se transformar em um adulto que não gosta de ler, são muito grandes.

A criança aprende não apenas com a visão e a audição,mas por meio de todos seus receptores sensoriais. Assim, Munari enxergou a possibilidade do livro como objeto sensorial e desenvolveu livros pequenos com materiais, tamanhos, cores e encadernações diversas. Criou, o que denominou de pré-livro: o autor desenvolveu um conjunto de livros em que a colocação da mensagem do livro era sempre simétrica e, seja por qual lado fosse iniciada a leitura, o conteúdo não perderia sua lógica.

“A cultura é feita de surpresas, isto é, daquilo que antes não se sabia, e é preciso estarmos prontos a recebê-las, em vez de rejeitá-las com medo de que o castelo que construímos desabe”

Não eram histórias finalizadas, pois sua intenção não era condicionar os pequenos leitores, e sim estimular sua criatividade, ajudando na criação de um pensamento elástico desde cedo.

Pré-livros

Bruno Munari, com sua metodologia de projeto, enxergou a potencialidade de um objeto e o transformou completamente. Seu projeto compreende que o saber não deve ser autoritário e o livro não deve intimidar o pequeno leitor, muito menos virar uma obrigação chata em sala de aula. Questionar as funções de um objeto nos faz ver além do uso raso que nos é tão habituado e explorar diversas possibilidades.

Fonte: Bruno Munari — Das coisas nascem coisas