O Belo e o Bom em Homero

(Obs.: Esse artigo foi feito para a disciplina de História Antiga da UFRGS em 2015, e está sendo postado para fomentar as discussões na tag #beleza no grupo Confraria Café Brasil (www.portalcafebrasil.com.br). No final estão as citações da Ilíada mencionadas no artigo e as demais referências bibliográficas. Vou tentar botar as citações como comentários pra ficar mais fácil de acompanhar, mas se não der certo estão todas no final mesmo.)

καλός

(…) nenhum Homero ou Wieland pode indicar como suas idéias ricas de fantasias e contudo ao mesmo tempo densas de pensamentos surgem e reúnem-se em sua cabeça, por que ele mesmo não sabe, e, portanto, também não pode ensiná-lo a nenhum outro. (Kant, p. 154)

O testemunho mais remoto da antiga cultura aristocrática helênica é Homero, se com este nome designamos as duas epopéias: A Ilíada e a Odisséia. Para nós, ele é ao mesmo tempo a fonte histórica da vida daqueles dias e a expressão poética imutável dos seus ideais [1] . Dessa forma, pode-se dizer que faz quase três mil anos que a obra de Homero vem influenciando a realidade ocidental, envolta em mistérios sobre a autoria e a veracidade de partes do seu conteúdo. Mas é inegável sua importância especialmente na formação da idéia de Homem, do homem grego — e também da mulher. As tendências no pensamento helênico tem raízes profundas não-filosóficas nas tradições literárias e religiosas dos gregos [2]. Homero, na sua descrição da estrutura geral da sociedade, das relações dos homens com as mulheres e até das circunstâncias físicas de sua existência, se inspira em modelos contemporâneos seus. Se não o fosse, sendo uma obra para ser cantada ao público, a tentativa de descrever um mundo exótico estaria fadada ao fracasso [3] . Sua aceitação atemporal está diretamente relacionada com a natureza fidedigna de suas descrições, que formaram a base da paidéia, a educação cultural do homem grego.

Conta Platão que era opinião geral no seu tempo ter sido Homero o educador de toda a Grécia [4]. No tempo dos poemas homéricos, a beleza que penetrará no coração da civilização grega, que se revelará na poesia de Safo, nos vasos de Ezequias e nas esculturas de Fídias, expressa-se na obra homérica por meio de um personagem sedutor e perigoso como Helena [5] , e também em Criseida, Briseida, e nas deusas [6] . Na parte masculina, são destacados pela beleza Agamêmnon, Páris-Alexandre e inclusive o jovem Telêmaco. Não por um acaso que, na aparição de cada personagem, a beleza é exaltada: os monumentais poemas épicos vinham de uma maior psique coletiva, as criações da imaginação racial helênica passavam, desenvolviam-se e eram refinadas geração após geração, bardo após bardo [7] — ou melhor, aedo após aedo, rapsodo após rapsodo. Assim, se tornou fundamental na formação do Homem o καλός, isto é, a beleza, no sentido normativo da imagem desejada, do ideal. [8] O kalos kagathos grego, ideal aristocrático. Por isso, a curiosa aparição de Tersites, tomando posição contra o próprio Agamêmnon, se sobressai no Canto II da Ilíada:

“Só Tersites de fala desmedida continuava a tagarelar — ele que no espírito tinha muitas e feias palavras sem nexo e sem propósito, para vilipendiar os reis, embora o que acaso lhe ocorresse dizer fizesse surgir o riso entre os Argivos. Era o homem mais feio que veio para Ílion: tinha as pernas tortas e era coxo num pé; os ombros eram curvados, dobrando-se sobre o peito. A cabeça era pontiaguda, donde despontava uma rala lanugem” [9]

Mesmo provavelmente pertencendo à uma patente inferior, ele tomou liberdade para dirigir para o Atrida suas opiniões e insultos. Estava ele certo quanto à natureza de certa forma inútil da investida contra Tróia. Ao final, Ulisses bateu nele, repreendeu-o prometeu uma futura humilhação, mas também elogiou sua oratória. O poeta quis salvar do esquecimento o soldado raso Tersites? Ele é antes o eco, desfavorável, da existência, diante dos áristoi, de classes sociais menos gloriosas [10] ? Ora, oratória era uma qualidade da aristocracia, uma consequência da paidéia. Talvez o desmerecimento das palavras de Tersites tenha como principal motivo a sua feiura. Desde o momento que a sociedade burguesa adotou aquelas formas — kalokagathia — a ideia que as inspira converteu-se num bem universal e numa norma para toda a gente. [11]

“O belo e o bom não passam de dois aspectos gêmeos de uma única realidade, que a linguagem corrente dos gregos funde numa unidade, ao designar a suprema arete do Homem como “ser belo e bom” (καλοκαγαθία). É neste “belo” ou “bom” da kalokagathia apreendida na sua essência pura que temos o princípio supremo de toda vontade e conduta humanas, o último motivo que age por uma necessidade interior e que é ao mesmo tempo o fundo determinante de tudo o que sucede na natureza.” (JAEGER, p. 745)

O tema essencial da história da formação grega é antes o conceito de arete, que remota aos tempos mais antigos. [12] Em português, seu significado mais próximo está na palavra “virtude”, que acaba por englobar o conjunto de todas as exigências ideais, físicas e espirituais, que formam a kalokagathia, no sentido de uma formação espiritual consciente [13]. A não-separação entre a estética e a ética é característica do pensamento grego primitivo. A complexa e multiforme visão de mundo dos gregos tem uma tendência constante e muito diversificada de interpretar o mundo em termos de princípios arquetípicos — evidente em toda a cultura grega a partir da épica de Homero [14]. O procedimento de separar e estudar esses princípios surge relativamente tarde ainda na Grécia com trabalhos de filósofos como Platão e Aristóteles, que vieram a inspirar filósofos contemporâneos, como Immanuel Kant. Entre esses princípios arquetípicos estavam as formas do homem (anthropos) e outras criaturas vidas; as idéias do bem, do belo, do justo e de outros valores absolutos morais e estéticos.

Especialmente no que concerne à beleza, Platão fez uma relação entre seus próprios estudos sobre Formas e Idéias com o mundo empírico da realidade cotidiana, e concluiu que um determinado objeto é o que é em virtude da Ideia que a define. Uma pessoa é “bela” até o ponto exato em que o arquétipo da Beleza está presente nela [15]. Aristóteles substitui as Idéias de Platão pelas universalidades — qualidades comuns que a mente pode apreender no mundo empírico, mas que não existiam independentemente desse mundo. Para ele, Muitas coisas podem ser bonitas, mas isto não quer dizer que exista uma Ideia transcendente de Belo. A Beleza só existe se uma substância concreta é bonita até algum ponto [16].

Esse arquétipo de Beleza, tão evidente para cada um individualmente, é um problema filosófico até hoje não resolvido. Kant dirá que é na verdade uma curiosidade não para o lógico, mas para o filósofo transcendental; ela desafia seu não pequeno esforço para descobrir a origem da mesma, mas em compensação desvela também uma propriedade de nossa faculdade de conhecimento, a qual sem este desmembramento teria ficado desconhecida [17]. Ele concordará com Platão que o conhecimento baseado nos sentidos é uma opinião subjetiva, que varia sem nenhum fundamento absoluto, [18] o que quer dizer que é mais que um mero juízo de gosto. Kant também virá a relacionar que, o que consideramos belo em um ser humano, está estritamente relacionado com a questão moral. Ele dirá que temos uma ideia normal de beleza, que é para a espécie inteira a imagem flutuante entre todas as intuições singulares e de muitos modos diversos dos indivíduos e que a natureza colocou na mesma espécie como protótipo de suas produções, mas parece não tê-lo conseguido inteiramente em nenhum indivíduo [19].

Ela (a ideia normal) não é de modo algum o inteiro protótipo da beleza nesta espécie, mas somente a forma, que constitui a condição imprescindível de toda a beleza, por conseguinte simplesmente a correção na exposição da espécie. Ela é, como se denominava o famoso Dorífero de Policleto, a regra. (Kant, p. 81)

Em contrapartida, apresentará a noção de beleza moral, que curiosamente é muito semelhante a moral da kalokagathia.

A expressão visível de idéias morais, que dominam internamente o homem, na verdade somente pode ser tirada na experiência; mas tomar por assim dizer visível na expressão corporal (como efeito do interior) a sua ligação a tudo o que nossa razão conecta ao moralmente-bom na ideia da suprema conformidade a fins — a benevolência ou pureza ou fortaleza ou serenidade etc. — requer idéias puras da razão e grande poder da faculdade da imaginação reunidos naquele que quer apenas ajuizá-las, e muito mais ainda naquele que quer apresenta-las. (Kant, p. 81)

Atenas, quando na Odisséia contata Telêmaco, de certa forma quis dizer que o ele, independente de suas qualidades físicas, teria que desenvolver suas virtudes, sua arete [20] , expressada aí como coragem. Quando Kant diz que um homem poderia ter traços muito mais finos e uma fisionomia com um perfil mais aprazível e suave, desde que ele não devesse representar um homem ou mesmo um guerreiro [21], expressa sem querer o motivo de Páris Alexandre [22] ser considerado tão peculiar em sua aparência, que seria belo demais para um rapaz — seus cabelos e sua beleza são “dádivas encantadoras da áurea Afrodite” [23]. E também, Kant nessa frase argumenta a favor da típica beleza masculina presente em Agamêmnon, avistado por Príamo à distância. [24]

A partir dessa análise, é evidente a ressonância arquetípica sobre a beleza difusa da visão de mundo arcaica da Grécia expressa, acima de tudo, nos poemas épicos fundadores da cultura grega que chegaram até nós — a Ilíada e a Odisséia, de Homero [25] Com base nisso, Kant também pode afirmar que é evidente que a verdadeira propedêutica para a fundação do gosto seja o desenvolvimento de ideias morais e a cultura do sentimento moral, já que somente se a sensibilidade concordar com ele pode o verdadeiro gosto tomar uma forma determinada e imutável [26].

Esse arquétipo, expresso também em estátuas e outras formas de arte, nos remete a realidade da época, quase com um sentido de modismo, propagado pela aristocracia e almejado pelas pessoas em geral. Não muito diferente do que vemos hoje em dia, mas sem o significado moral necessário à complacência de determinada beleza. Um dos críticos de Platão disse uma vez: “Vejo determinados cavalos, mas não a cavalice.”. O que seria, nos dias atuais e nesse contexto, o equivalente a dizer “vejo uma bela pessoa, mas não a belezura”. Platão respondeu: “É porque tens olhos, mas não a inteligência.”

Referências Bibliográficas:

  • HOMERO. Ilíada. Tradução de Frederico Lourenço. — São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2013.
  • HOMERO. Odisseia. Tradução de Frederico Lourenço. — São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011.
  • JAEGER, Werner. Paidéia: a formação do homem grego. Tradução de Artur M. Parreira. — 5.ed. — São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010.
  • KANT, Imannuel. Crítica da Faculdade do Juízo. Tradução de Valério Rohden e Antonio Marques. — 2.ed. — Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.
  • TARNAS, Richard. A epopéia do pensamento ocidental: para compreender as idéias que moldaram nossa visão de mundo. Tradução de Beatriz Sidou. — 8.ed. — Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.
  • VIDAL-NAQUET, Pierre. O Mundo de Homero. Tradução de Jônatas Batista Neto. — São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

Citações:

1 — JAEGER, p. 25–26.
2 — TARNAS, p. 88
3 — RIEU, 1950, p. 61–62
4 — JAEGER, p. 61
5 — VIDAL-NAQUET, p. 81
6 — [Agamêmnon] “prefiro-a [Criseida] a Clitemnestra, minha esposa legítima, pois em nada lhe é inferior, nem de corpo, nem de estatura, nem na inteligência, nem nos lavores” (I-110/115)
“façamos embarcar a própria Criseida de lindo rosto” (I-140)
“mas irei depois à tua tenda buscar Briseida de lindo rosto, essa que te calhou como prêmio”(i-180/185)
“…trazei pela mão Briseida de lindo rosto” (I-320)
“… e trouxe da tenda Briseida d e lindo rosto” (I-335)
[Aquiles] “encolerizado no coração por causa de uma mulher de bela cintura” (I-425)
“Atena, a deusa de olhos esverdeados” (vários)
“Hera, de alvos braços” (vários)
“Helena de alvos braços” (III-120)
“Maravilhosamente se assemelha ela às deusas imortais” (III-155)
7 — TARNAS, p. 32
8 — JAEGAR, p. 24
9 — Ilíada, Canto II — 215.
10 — VIDAL-NAQUET, p. 97
11 — JAEGAR, p. 24.
12 — JAEGAR, p. 25.
13 — JAEGER, p. 338.
14 — TARNAS, P. 17
15 — TARNAS, P. 18
16 — TARNAS, P. 73
17 — KANT, P. 58
18 — TARNAS, P. 22
19 KANT, P. 80
20 — “Muito a ele te assemelhas no desenho da cabeça, na beleza dos olhos” (I-205)
“Da tua parte, amigo — vejo como és alto e belo –, sê corajoso, para que homens ainda por nascer falem bem de ti.” (I-300)
21 — Kant, p. 76
22 — [Heitor] “Páris devasso, nobre guerreiro somente na cuidada aparência” (III-35)
“ao chegares a um povo estrangeiro trouxeste uma mulher bela” (III-45)
“Ficarias a saber que têmpera é o homem cuja linda mulher possuis. de nada te serviria a lira ou os dons de Afrodite, muito
menos os teus penteados e beleza, estatelado no pó” (III-50/55)
[Alexandre] “resplandecente na sua beleza e belas roupas” (III-390)
23 — VIDAL-NAQUET, p. 91
24 — “e para e me dizeres quem é este homem guerreiro, ele que é um aqueu tão alto e tão forte; na verdade outros haverá uma cabeça mais altos, mas nunca com os olhos vi homem mais belo, nem de aspecto tão nobre: pois parece um rei” (iii-165/170)
25 — TARNAS, p. 31
26 — KANT,p. 200.

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