inconstante

aprendi uma coisa muito importante sobre ser eu: sou inconstante. acredito na transformação diária em várias carolinas. sim, dizem que essa é a influência geminiana. mas vai além, bem além. eu sempre busquei uma plenitude eterna, uma tranquilidade, uma maturidade, uma conquista material, um closet cheio de sapatos caros, um armário com todas as roupas do mundo, um cabide com casacos de todas as cores. eu queria isso, porque eu queria preencher um vazio. um vazio chamado autoconhecimento. eu não sabia quem eu era, eu era apenas uma projeção dos meus pais, dos meus relacionamentos, das pessoas que eu olhava no feed e tentava imitar. sim, eu era um reflexo torto do mundo. muito torto, porque quando a gente reflete algo que não somos, não conseguimos refletir por completo. só é uma parte.

então, eu tive que ficar sozinha. destino ou apenas sorte.

eu perdi todas as referências para refletir. eu pirei, eu perdi o rumo, eu fiquei louca. eu estou louca, totalmente. doida por mim, doida por cada pedaço do meu corpo, que eu sempre achei horrível. eu perdi a saúde mental dos outros e descobri a minha. eu botei tanta, mas tanta expectativa, que simplesmente passou. só passou. só saiu, só foi. aquele peso das costas eu ainda sinto, tá pesado, sim. mas eu tô leve. o que me pesa é a vontade louca, bem doida mesmo, de ser eu. e, pela primeira vez na vida, eu tô sendo. eu não estou refletindo nada, nem ninguém. eu tô vivendo. eu tô sentindo novamente. eu tô sentindo o gosto de cada comida que eu preparo, que sim, eu adoro cozinhar, eu amo sentir o cheiro do meu feijão, da minha batata doce assando. mas eu odeio comer pão só por comer, mas eu preciso em alguns momentos. sim, eu amo patê de fígado, porque ele lembra meu pai. e bem, eu tenho odiado ficar brisada demais, porque eu perco a consciência, a produtividade, a carolina real. eu fico ansiosa, sim, eu fico nervosa. e simplesmente, assim sem mais nem menos, eu descobri que aquele vazio já tá preenchido. eu só tava viciada em ser outra pessoa. sim, é vício. faz quatro dias que tô tentando perder o vício de preencher alguns vazios com objetos chamados roupas e sapatos. porque quando a gente se ama, de verdade — não, eu ainda não cheguei nesse ponto — a gente vê que aquele papo todo de amor próprio FAZ SENTIDO DEMAIS, MUITO MESMO, MUITO.

eu perdi muita coisa para conseguir ganhar. e o clichê não é ruim, ele só te dá alguns tapas na cara e te mostra que a tua verdade — porque isso não é algo genérico, cada um tem uma, a realidade não existe, ela só é uma interpretação, uma versão da tua verdade — tá muito mais perto do que tu imagina. sim, eu misturo tempos verbais, eu misturo massa com feijão, mas eu não gosto de misturar molho com feijão. eu gosto de roupas pretas e gosto dos meus cachos. depois de perder metade do meu cabelo e de ver ele caindo, eu vi que amo ele. que amo o jeito volumoso que ele fica, porque ele sou eu. se você se sente lisa, seja lisa. eu me sinto encaracolada, todinha; porque eu sou toda movimento, toda inconstante. eu sou calma em muita coisa, mas sou muito agitada em outras. eu tô tentando me descobrir e isso é louco. porque eu tô me apaixonando, eu tô muito na pira de eu mesma. eu nunca tinha sentindo isso, nunca. eu nunca tinha olhado no espelho e tido um sorriso sincero. eu tô só amor. eu chorei muito por muito tempo. e eu vou seguir, ok?eu vou morrer de saudade da minha família, porque eu AMO eles, eu não sou rebelde sem causa.

eu gosto de cozinhar, eu quero largar o vício de comprar, eu amo pilates, eu odeio essa loucura de ser individualista, eu luto muito para que mulheres sejam respeitadas, eu realmente acho que qualquer um pode vestir o que quiser, eu amo tatuagem e eu não vou mais achar que isso impede algo, eu não vou mais mentir; nem pra ficar na moda.

chegou aqui? agora você sabe o que é ser inconstante.

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