História de um resistente ao lixo cotidiano: ‘’A vida louca de Eparina´s Crazy’’ — Documentário

Relato inicial de Epá.

Disponibilizado no youtube em 2015 pelo canal ‘’Bosta Boa Produções’’, segundo descrição da produtora: ‘’com o intuito de documentar como Epá define “A vida louca de Eparina’s Crazy”, andamos por ruas, subimos vielas, caminhamos pelo lixo, dialogamos com diferentes pessoas que conheciam Epaminondas, o Epá da Coreia, bairro da capital maranhense. Dessas conversas, várias perspectivas surgiram, construindo diferentes histórias e realidades sobre Epá. Ao indagarmos “Quem é Epá?”, narrativas foram se intercalando. Visões sobre ele se misturaram com as histórias pessoais de seu companheiro, vizinhos, irmãos e dessa comunidade. Ao falarem do Epá, não falavam apenas dele, mas também de si mesmos. A história do Epá não é apenas uma história de um morador de rua, mas sim, a história de uma pessoa que, como muitas pessoas, buscou formas de ser cada vez mais livre e viver essa liberdade(…) ‘’

Foi exibido na 38ª edição do Festival Guarnicê de Cinema e no projeto ‘’Curta Diversidade’’, no eixo “Diversidade Étnico-Racial, Sexualidade e a População de Rua” do Cine Praia Grande. Ambos em 2015, na cidade de São Luís(MA).

Epá fantasiado, dançando em um dos grupos de samba tradicionais da Madre Deus.

O documentário se passa no Bairro da Coréia, bairro esse que junto a outros distritos periféricos faz parte da região popularmente conhecida Madre Deus(que também é Bairro). Essas áreas são riquíssimas culturalmente pois abrigam sedes de escolas de samba, grupos folclóricos e casas religiosas de matriz africana. Durante o ano inteiro acontecem eventos de apelo turístico na região, e quem possui um olhar mais atento percebe as desigualdades que permeiam esses espaços. Apesar de sua movimentação cultural, a Madre Deus também é morada de uma numerosa população de rua, majoritariamente usuária de drogas, que sobrevive fazendo qualquer tipo de trabalho para se sustentar.

É nesse contexto que Epá se faz. A produção do filme consegue de forma sensível exibir como o meio em que Epá vive o influenciou, assim como mostra o agente social que Epá é para o seu Bairro.

Pato que será abatido

Epá inicia relatando a sua primeira experiência sexual gay, onde fora abordado por um homem armado com uma faca. O homem tenta obrigar Epá a transar com ele, mas, Epá cede por desejo próprio. Na montagem do relato intercala-se a imagem de um pato sendo abatido por Epaminondas, com uma faca igualmente. É uma associação interessante no tocante a violência dos atos: é inegável que Epá sofreu uma tentativa de estupro, algo que ocorre comumente com a população de rua, porém ele suaviza o relato ao dizer transou por ‘’livre espontânea vontade’’. A edição, ao mostrar simultaneamente o abate do animal, resgata a violência do contexto pra quem assiste, instigando no espectador a reflexão de até onde vão os limites entre a opressão e o desejo inato.

No decorrer, seguem relatos da família de Epaminondas. É possível apurar que Epá foi expulso de casa pela sua sexualidade, outra configuração familiar comum a população gay de rua. Após os testemunhos ocorre uma das melhores cenas do documentário: exibe-se o antigo quarto de Epá na casa de sua família, e, de forma dramática beirando ao suspense, a câmera sai do quarto de Epá e percorre o contexto de violência familiar em que o protagonista viveu, com a cena em preto e branco a câmera passeia pela casa até chegar a rua.

‘’Onde ele mora, é lá que é a liberdade dele (…)’’

O filme retoma cor ao exibir onde Epá vive de forma livre: sua casa. Seguem-se relatos dos vizinhos de Epá, onde fica clara a posição social que o mesmo ocupa em sua comunidade: ao mesmo tempo que eles dizem que o protagonista é um morador de rua, resgatam o fato do mesmo morar numa casa abandonada; uma vizinha relata que para ela ‘’a vida de Epá é um nada’’, ao mesmo tempo que relata que Epá trabalha para sobreviver; outro vizinho afirma que as trocas de favores que faz com Epá se dão de forma igualitária, ao mesmo tempo que o trata como um empregado (a edição do vídeo é esperta ao evidenciar a oposição do discurso na ação). Essas impressões antagônicas explicitam como Epaminondas é conveniente a sua comunidade no limite em que ele presta um serviço de forma subjugada. A outra face da questão mostra que Epaminondas deixa de ser gente e se reduz a um ‘’nada’’ quando seus vizinhos e familiares são indagados sobre o que o protagonista é para além do que ele pode oferecer.

Epá catando lixo para reciclagem

Em seguida, a montagem do filme coloca cenas que contrariam o que fora relatado. Se explora o ‘’nada’’ em que Epá vive e trabalha sobre. O protagonista relata como recicla o lixo que encontra pelas ruas, e paralelamente a isso a edição mostra o interior da casa de Epá, organizado e funcional como uma casa comum. Pode-se concluir que a referência de vida que os vizinhos tem foge a noção de reaproveitamento do lixo para a construção de um lar, e, por isso também que Epá é reduzido a alguém marginal, pela forma como vive alternativamente. É interessante como a câmera e a edição frisam a manutenção da casa de Epá a todo momento, assim como a higiene notável do protagonista, pra carimbar visualmente que aquele espaço significa muito pra além de um nada. Afinal, Epaminondas já não é mais um morador de rua.

Em sequência o protagonista relata sobre o uso moderado e consciente que faz sobre algumas drogas. É interessante destacar que é feita uma edição lúdica após o relato, onde cruzam imagens da casa de Epá e objetos/brinquedos coloridos que ele coleciona, passando uma impressão psicodélica.

Epá e seu companheiro

Adiante: Sergipano, companheiro de Epá, é apresentado. Pela fala de Epá e do companheiro apura-se que o protagonista resgatou Sergipano das ruas. O companheiro cita diversos Hospitais Psiquiátricos locais por onde passou antes de viver com o protagonista. A edição coloca um foco que a câmera dá sobre um gato dormindo tranquilamente numa caminha dentro da casa de Epá, ao mesmo tempo que Sergipano vai relatando como vive bem e de forma acolhedora ao lado de seu companheiro. A impressão dessa montagem ressalta como num ambiente aparentemente inóspito (para pessoas com outra referência de vida) moram pessoas, que de forma estigmatizada estão fadadas ao pior pela sociedade, em um lar onde podem descansar e exercer suas liberdades.

Gato dormindo em sua caminha

Epaminondas sofre opressões duplamente: em decorrência de sua sexualidade é excluído do meio familiar e cai para a situação de rua por não ter qualquer amparo. O filme é impecável em sua montagem e filmagem ao estabelecer pontes que ressaltam as contrariedades que perpassam a vida de Epá. O documentário só peca em alguns momentos na escolha de sua trilha, como por exemplo: cena que Epá sai as ruas com seu carrinho de mão, e, no fim da cena em que a casa da família de Epá é exibida. No mais, o documentário é uma excelente fonte de análise para estudos sobre a população LGBT de rua e seus processos de exclusão social.

A VIDA LOUCA DE EPARINA’S CRAZY — Direção: Domingos de Jesus | Documentário | 18 anos | 2015 | 25′ | MA

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=nkJ2E8KIp0A