A Cidade Olímpica, a alegria e o pessimismo

Eu reclamei as Olimpíadas inteiras. E já vinha reclamando antes delas também.

A verdade é que eu sabia que os jogos seriam realizados com relativa tranquilidade, aparente, como sempre, para os turistas e os privilegiados moradores da Zona Sul, eu mesma inclusa.

Mas não sei se é essa a cidade que eu quero para mim.

Vamos às estatísticas?

De acordo com a página Maré Vive, mais de 2.600 pessoas foram mortas pela Polícia do Rio desde que a cidade foi escolhida como sede da Olimpíada. A maioria das vítimas são jovens negros de favelas e periferias.

Carlos Eduardo, 16 anos, foi executado por policiais do 41 BPM em novembro do ano passado, junto com outros quatro amigos. Seu pai, Carlos Henrique, não se calou e luta por justiça desde então.

No dia 20 de agosto, ele esteve no Maracanã — junto com o Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas — levando uma bandeira em memória dos jovens vítimas de agentes do estado.


“Mas você só reclama. O que você tem feito pra mudar?”

Bom, em primeiro lugar, não sei se estou certa ou não, mas sou uma dessas pessoas que ficam quietas quando fazem algo pelo outro. Não sou Madre Teresa de Calcutá. Na verdade, me considero uma pessoa bem mediana. Mas também não divulgo o que faço pela minha cidade e pelo que acredito ser o melhor caminho — o que não quer dizer que eu não esteja fazendo.

Não divulgo por um motivo muito simples: eu não sou ativista. Você dificilmente vai me ver em passeatas e encontros. Sou uma pessoa individualista, o que é bem diferente de ser egoísta.

Sou uma escritora que escolheu o apartamento mais silencioso que encontrou para morar e que tem uma gata. Veja bem: eu não quis um cachorro, eu quis uma gata. Eu não quero um bicho pulando em cima de mim e me lambendo e me fazendo me sentir a pessoa mais especial do mundo. Eu quis uma gata que me faça companhia quando ela quiser fazer.

Sou capaz de passar dois ou três dias em silêncio em casa, sem colocar o pé na rua.

E acredito que pagar os meus impostos, que consomem 1/3 da minha força de trabalho, já deveria ser o suficiente. Mas sei muito bem que não é.


Mas se você está insatisfeita, pegue um avião e se mude para…

Errr…não é tão simples assim. No meu caso, o caso de uma pessoa com muitos privilégios, isso requer planejamento. No caso da maioria dos brasileiros, essa possibilidade simplesmente não existe. Não existe porque mal se ganha dinheiro para comer. Você sabe disso. Eu sei disso. Todo mundo sabe disso. Então, deixa o povo continuar reclamando porque isso pelo menos significa que está se prestando atenção.

Eu sei. É cansativo viver nessa atmosfera pessimista. Eu mesma tenho tido minha energia sugada. Entra golpe, sai golpe (somos um país de golpes, conforme nos lembra o historiador Leandro Karnal nesta entrevista) e parece que a coisa continua a mesma. Mas não continua.

Eu acredito na mudança. Ela está vindo aos poucos. Outro dia, assisti ao documentário sobre PC Farias na GloboNews e fiquei chocada. Eu tinha só 8 anos, mas me lembro como se fosse hoje. Tudo era um mistério. Aquela escassez de informações não existe mais.

Não sei quando uma mudança efetiva virá, mas tenho que continuar acreditando, apesar dos muitos retrocessos que estamos vivendo. Não sei se a mudança efetiva vai acontecer de uma hora para outra. Acho que ela acontece gradativamente, e é isso que sufoca os ansiosos como eu.

Só não me peça para ser otimista e distribuir sorrisos porque “fizemos uma linda festa”.

O presidente do Comitê Olímpico, Carlos Arthur Nuzman, errou as cores da nossa bandeira ao traduzir seu discurso para o inglês na cerimônia de encerramento das Olimpíadas ontem. Ele disse “Yellow and red”, o que rendeu algumas piadocas com o PT, comunismo etc.

Bom, a primeira coisa que me veio à cabeça é o mar de sangue em que o Rio está imerso e que aparentemente ninguém está enxergando. Que atitude negativa a minha, né não? Vamos cantar Cidade Maravilhosa, fazer uma árvore mixuruca brotar no meio do Maracanã e celebrar a cidade que não cumpriu nenhuma norma ambiental e está se lixando para os direitos básicos da população.

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