Dia do escritor

Olha, bicho.

Eu sei que já disse isso aqui e não quero soar como uma velha repetitiva antes da hora, mas escrever dói.

Você não escreve, não. Você sangra. O Hemingway tinha razão.
Viver de escrever é uma entrega.

Já falei isso também, mas a gente não usa as mãos para escrever. A gente usa o corpo todo. A gente usa o fígado. Eu não sei o seu fígado aí, mas o meu tem uns bons quilômetros rodados. Mais que o velho Honda Civic que eu comprei pra me transportar aqui na cidade dos anjos.

Ah é, the good old Los Angeles. Você quer saber disso, né, Chambinho? Deixa que eu te conto depois. O Medium é meu e eu vou continuar falando de escrever que hoje é dia do escritor e o meu ego é meio grande pra eu parar de falar de mim a uma hora dessas.

Já passa das onze aí no Brasil, Chambinho, então se eu não mantiver o foco aqui, a carruagem vira abóbora e eu perco o dia do escritor.

Xô te falar.

Eu tinha uns cinco ou seis anos quando peguei a etiqueta daquele ursinho de pelúcia rosa no pequeno apartamento onde a gente morava na avenida Getúlio Vargas, lá na minha cidade.

Você nunca ouviu falar da minha cidade, Chambinho. Nem vou te dizer o nome da minha cidade.

-Ma-ri-teli?

Era Maritel o nome da marca do ursinho de pelúcia. E a minha mãe fez uma festa tão grande porque eu li aquele troço, era a primeira vez que eu lia alguma coisa na frente dela.

Minha pobre mãe que deu a luz a alguém com uma cabeça bem fodida de escritora.

Você não tá entendendo a criança que eu fui, Chambinho.

Todo dia que eu levava guarda chuva pra escola, eu esquecia.

Se alguém me buscasse na escola e me deixasse do outro lado da praça em frente à minha casa, eu largava a mochila pelo meio do caminho mesmo.

Minha mãe me fazia voltar e catar tudo.

Adiantou alguma coisa? Sei lá.

Eu continuo desligada (um pouco menos, por uma simples questão de necessidade) e estou cada vez mais louca, Chambinho.

Tem isso também: eu sou louca.

Acabei de ser, e juro que não estou contando vantagem nenhuma nisso, até porque eu tive sorte demais na vida, acabei de ser aprovada em uma das faculdades mais renomadas aqui dessas terras imperialistas.

Sabe por quê, Chambinho?

Porque eu vivo dentro da minha cabeça.

Me mandaram inventar uma história lá, eu inventei, escrevi, contei pra eles e fui aprovada.

Eu odeio gente. Do fundo do meu coração. Eu não saio dizendo isso por aí. Só postando.

Mentira, eu costumo dizer isso com alguma frequência também.

Eu gosto até de observar as pessoas, mas não sou brilhante pra interagir com elas.

Tem coisa mais clichê que escritor que odeia gente?

Tem, né. Mas deixa pra lá. Foca aqui.

Eu tô te falando que odeio gente porque é muito fácil criar história aqui dentro da cabeça quando não se está muito interessado em socializar, Chambinho.

A maior parte das pessoas é um saco e eu percebi isso nova demais quando enfiei o nariz numa revistinha da Turma da Mônica e não quis mais sair de trás dela.

O meu castigo quando eu fazia merda não era igual ao das outras crianças, que não podiam ir lá fora brincar.

Eu não podia LER quando fazia merda, Chambinho.

Tô te falando, eu sou esquisita.

Então, viver de escrever, Chambinho, já que a gente tá nessa temática aqui, virar as costas pra concurso público (se bem que, bom, também não vamos falar da economia no Brasil a uma hora dessas pra não cortar os pulsos) e pra qualquer rasgo de estabilidade que você pensa que poderia ter na vida, tomar a decisão de viver de escrever, sair do armário de escritor, Chambinho, eu vou te contar um negócio, é difícil pra caralho.

Você provavelmente não vai ganhar bem, não.

Deixa os holofotes lá pros atores. Ninguém quer olhar essa sua cara feia.

Continua quietinho aí e vai escrevendo.

Boa sorte.

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