-E aí?, — me indaga o espaço em branco. — Vai me preencher ou não?

Não sei por quê, mas sinto, desde tempos praticamente imemoriais, quando a professora vinha com o tema livre de redação, a obrigação de ser genial.

Se o meu texto não for genial, eu vou me sentir mal.

Obviamente, eu me sinto mal toda vez, porque nunca fiz nada genial na vida.

Escrever dói.

Sempre que eu digo que escrevo, tem alguém pra dizer que teve uma ideia.

Mas e pra colocar essa ideia no papel?

Dói.

Doeu para fazer o movimento nada natural com o lápis e escrever o a e i o u quando eu tinha cinco anos.

(Doeu especialmente porque eu sou canhota, e escrevia ao contrário, começando do lado direito e fazendo as letras todas invertidas. Se você colocasse o que eu escrevia na frente de um espelho, dava pra ler direitinho.

Não me surpreende aquela crença nem tão antiga assim de que canhoto é cria do capeta.)

Doeu quando comecei a digitar furiosamente no Word, porque não tinha habilidade social pra falar e preferia me entender com o computador.

Doeu quando eu fui pro Blogspot.

Doeu no Wordpress.

Vai continuar doendo no Medium, tenho certeza.

Não se escreve com os dedos, ou com os olhos, ou com a cabeça.

Escreve-se com o corpo todo. Seu fígado escreve, seus pulmões escrevem.

Você achou que o apêndice não servia pra nada? Taí.

Bom, serve pra gente ter apendicite também, mas aí é outra história.

Mas essa dor é uma dor boa, sabe? É dor de alongamento.

É uma dor pra não sentir dor.

Espero que você goste do monte de bobagem que eu tenho pra escrever aqui.