O que as Olimpíadas estão me ensinando

Não, eu ainda não fui conquistada pelo espírito olímpico. Mesmo agora, assistindo ao emocionante depoimento de Diego Hypolito, que comenta sobre a fase de sua vida em que teve depressão, e que ela só acabou quando ele percebeu como era pequeno o fato de ter perdido em Pequim e em Londres perto da infância que teve, com o pai trabalhando como ambulante no sinal e ele mesmo, Diego, tendo de complementar a renda como ambulante na praia para ter o que comer.

É lindo, mas não é nada além do que eu já conheço: a garra que o brasileiro é obrigado a ter.

Vivemos em um país…bom, eu já estou cansada de ler reclamações e reclamar do Brasil, vocês sabem em que país vivemos.

Morei cinco anos em Copacabana. Amo o bairro. Estou acostumada a festividades e ruas cheias de gringos (embora hoje eu agradeça por morar em uma região, digamos, menos turística, o Catete, porque os supermercados não ficam tão cheios, nem fica tão difícil se locomover).

Estou acostumada ao nosso sol e à nossa alegria. Amo o meu país apesar dos muitos pesares. Amo o Rio de Janeiro que há 12 anos me recebeu tão bem.

Mas, voltando ao início, aprendi que não existem milagres. Muito tem se falado sobre as mulheres “roubando a cena” nos esportes — como se elas estivessem chegando agora — e muito tem se comentado sobre o machismo enrustido dos comentaristas e jornalistas de esporte.

Eu não preciso de estatísticas do IBGE para mostrar que, sim, as mulheres trabalham mais e estudam muito mais do que os homens. E não é só isso. Somos ensinadas a nos importar mais. Com as relações humanas e, consequentemente, com o trabalho também. Se ainda não assistiu, assista ao documentário The Mask You Live In, disponível no Netflix. É um jeito bem americano de narrar, mas tudo, tudo ali se aplica à cultura brasileira.

Não estou dizendo que somos melhores do que os homens. Os homens, que costumam amadurecer depois, ainda estão buscando seu caminho. Inegavelmente, muitos estão tentando evoluir e admitem os erros na maneira como foram criados.

Não estou culpando os pais de ninguém também. Daqui a 20 anos, se eu ainda estiver por aqui, tenho certeza, vou olhar pra Carolina de agora e ver como eu era pequena.

Não fiz alarde nenhum nas redes sociais quando Rafaela Silva, a negra da Cidade de Deus, nos trouxe nossa primeira medalha de ouro no judô. Isso não quer dizer que eu não esteja muito feliz por ela. Mas ainda não consigo sentir orgulho.

Os muitos obstáculos que Rafaela teve de transpôr para chegar aonde chegou não deveriam ser comuns. Mas são.

Uma negra homossexual de origem pobre está ainda mais vulnerável que a maior parte dos atletas ali, mas ela superou tudo.

Rafaela está me ensinando que talvez eu devesse ser mais otimista. Mas eu tenho medo ainda, Rafa, de que isso implique em ser menos realista.

Os conservadores usaram sua imagem para confundir tudo e afirmar, sem o menor pudor, e, claro, com a maior das ignorâncias, que você não precisou de cotas e de feminismo para chegar aonde chegou.

Você mesma faz questão de ressaltar como o governo te apoiou. E quanto ao feminismo, bom, não precisamos nem entrar nesse mérito, né? Você não teria nenhum dos dois cargos, de militar e de judoca, se não fosse por ele.

Mas isso tudo você já sabe, Rafa, desculpe me dirigir a você.

Vamos continuar com o que as Olimpíadas estão me ensinando.

A abertura das Olimpíadas me ensinaram que os brasileiros talvez sejam o povo mais divinamente criativo do mundo. Há muitas falácias e crenças sobre nós — vivemos em um Carnaval o ano inteiro? Somos guerreiros mesmo ou apenas um povo que faz o que tem de fazer? — mas dessa eu nunca duvidei: somos extremamente criativos. Somos criativos para o bem e para o mal. A Lava-Jato é o maior caso de corrupção da história da democracia. Haja criatividade para chegarmos a esse ponto.

Temos cineastas dos quais podemos encher a boca para falar. Walter Salles, José Padilha e o genial Fernando Meirelles, responsável pela abertura.

Todos homens brancos vindos de famílias ricas? SIM.

Mas já é um começo, não?

As Olimpíadas me ensinaram que precisamos de mais inserção. Precisamos de mais Rafaelas. Precisamos continuar sonhando e continuar lutando. Precisamos administrar melhor a nossa grana. É nossa. Precisamos que ela pare de ir para o bolso dos políticos. Precisamos parar com a visão da classe média de assistencialismo. Para sermos uma grande nação, precisamos atender às necessidades básicas da população. A da Rafaela era lutar. Quais serão as das outras Rafaelas?