Torn

Carolina Massote
Aug 28, 2017 · 2 min read

oi, querido.

estou cansada.

cansada de tanto dirigir e de tanto pensar, e de tanto trabalhar, e de tanto trabalhar.

andei pensando cada vez mais que as coisas não fazem muito sentido, a gente é que segue nessa tentativa desesperada de organizar, de dar uma linearidade.

aí vai atrás dessa tal de carreira, desses tais de objetivos.

faz uma ideia do que o outro deve ser para tentar caminhar a nosso lado e deixar a vida um pouco mais leve e parte para a busca desse outro, e quanto encontra, molda esse outro, ou molda a gente mesmo, mas baby, nada disso faz sentido.

fez sentido por um breve instante enquanto eu me iludia sentada no seu sofá te ouvindo embebecida tocar violão com as suas belas mechas californianas de um louro escuro presas atrás desses lindos olhos verdes que me olhavam e faziam um milhão de declarações que, depois eu descobri, eram só palavras.

talvez eu estivesse me sentindo só.

voltei pra cá, mas não demoro muito, sabe o que é, baby, meus 30 tão chegando.

a gente arruma umas burocracias loucas que é só por causa disso, pra tentar se distrair com burocracia, papel, visto, estudar, estudar, estudar, estudar, estudar, trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar, continuar estudando, continuar trabalhando, encher o tanque, lavar o carro, pagar o seguro do carro.

pra tentar se distrair, baby, daquele lugar para o qual a gente caminha desenfreadamente, ela mesma, a morte, e antes dela, quem sabe, se a gente tiver muita sorte, ou muito azar, a velhice.

pra tentar se distrair do fato de que a nossa passagem por aqui é só isso mesmo, uma passagem, e que a gente sabe é nada do que tem lá fora além dessa passagem.

no que você acredita, baby?

eu acredito só que o nosso tempo passou, e que essa sua volta depois de um tempo foi outra tentativa dessas, de se distrair da sua solidão, das outras mulheres que não gostam de você como eu, que não se importam com você como eu me importo.

o tempo passou, baby, e se eu te disser que te esqueci, é mentira, mas o seu tempo já foi, e agora que eu me afastei é que vi, você é isso, você são essas madeixas louras e esse violão, mas também é aquele videogame que você não larga e tá na hora de crescer, baby, estou exausta, i need a man, i don’t need a boy, i’ve been a woman for too long, babe.

isso tudo foi pra responder aquela mensagem em que você disse que esperava que eu estivesse bem, eu estou bem, sim, quer dizer, to seguindo aí com dignidade, longe de você, e isso é o que tem de bem pra seguir, eu aqui, você aí, baby, por favor, não volte a brincar comigo.

)

Carolina Massote

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Je suis escrevinhadora. Televisão, Jornalismo Gonzo, Rio de Janeiro e feminismo.

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