- Ainda estou aqui.

Foi a última coisa que ela me disse depois de discutirmos, momentos antes d’eu sair do carro e bater a porta. Essas palavras até hoje ressoam em minha mente. Lembro ainda do seu tom de voz calmo e que ao mesmo tempo transbordava preocupação. Imagino até a expressão do seu rosto ao dizer essas palavras. Imagino apenas, pois naquele momento meu transtorno era tanto que eu não podia nem olhá-la. Anos se passaram e ainda me lembro de tudo tão claramente, como se tivesse sido ontem. Anos depois e são essas as palavras que ainda não me sinto capaz de merecer.

Ana foi para mim um amor que nunca encontrarei igual. Não foi o primeiro nem o último, tampouco o mais duradouro, no entanto foi o mais marcante. Meu amor por Ana chegou de mansinho quando estava desprevenido — exatamente como dizem alguns filmes e livros. É assim que os melhores amores chegam: do nada, quando você menos espera. Ela, eu já sabia, gostava de mim muito antes de me conhecer. Contou para todas as suas amigas que era apaixonada pela minha barba e tatuagens. Quando finalmente a conheci, me surpreendi com seu sorriso frouxo e me encantei com sua história de vida. Aos poucos, fomos nos permitindo conhecer melhor. Ela sempre puxando assunto e eu sempre sendo o cara blasé que era nos meus 26 anos. Sinceramente, hoje em dia não entendo como uma menina tão interessante e cheia de vida como Ana não me achou um chato logo de cara.

Ana foi ao meu aniversário de vestido colorido, mas a estampa exata não me recordo ao certo, pois lembro muito mais do seu sorriso estampado no rosto. Conversou e conquistou todos os meus amigos com a sua simpatia. Ainda teve tempo pra cantar, dançar e não me dar bola a noite toda. É, foi ali que percebi que Ana tinha sido feita pra mim. Tínhamos tantas coisas em comum que era assustador e incrível ao mesmo tempo. Viramos melhores amigos e companheiros em tudo. O amor de Ana transparecia nos momentos bons e transbordava nos ruins, como o dia em que li o bilhete que meu pai deixou para mim.

Um dia antes de sua partida repentina, o meu pai plantou um beijo no topo da minha cabeça enquanto eu jantava distraído. Até hoje me pergunto se naquela altura ele já tinha escrito a lembrança que guardo amassada na carteira até hoje.

E a imagem de outro beijo recebido no topo da cabeça foi o que me veio à mente quando discuti com Ana naquele carro. Carro que peguei carona tantas vezes nos dias de chuva. Beijo no topo da cabeça que dei para me despedir ao sair da cama para tomar banho e deixar a moça que conheci no bar da esquina do trabalho tirar mais um cochilo.

Ana, mulher forte e admirável que é, se negou a continuar comigo depois de uma traição fútil. E sem saber de toda a sua significância, me deu o beijo no topo da cabeça e disse: não pense que minha compaixão acaba por aqui. Não pense que esse término é mais um abandono. Eu ainda estou aqui.

Acho que nunca ouvi palavras tão honestas e que representassem tanto o real sentido do amor. Palavras que apesar de verdadeiras nunca fui capaz de aceitar, por não merecer nessa vida algo tão puro assim