Mulheres na arte: uma resistência atemporal

Por Carolina Menezes e Maria Júlia Giovanini

A Pinacoteca de São Paulo, museu da Secretaria do Estado de São Paulo, apresentou de 18 de agosto a 19 de novembro de 2018 a exposição “Mulheres Radicais: arte latino-americana, 1960–1985”. A mostra teve curadoria da historiadora de arte e curadora venezuelana britânica Cecilia Fajardo-Hill e da pesquisadora ítalo-argentina Andrea Giunta e foi a primeira na história a trazer um vasto acervo de práticas artistas realizadas por mulheres latinas juntamente com sua influência na produção internacional e sua relação com o determinado contexto histórico de cada obra.

A exposição surpreendeu ao dar luz à vasta produção feminina no âmbito artístico, uma questão que ainda é pendente no universo das artes visto que artistas mulheres ainda têm pouca visibilidade. A forte história de militância feminista presente na América Latina se faz presente na maioria das obras, que abordam temas como tabus do corpo feminino, a mistura do político com o poético, fotografias da diversidade entre as mulheres e diferentes abordagens dos corpos femininos, exposições documentais de períodos de ditadura e exílio através da arte, obras audiovisuais de experiências estéticas com o corpo feminino, entre outros temas. Entre as artistas, estavam algumas das mais influentes do século XX — como Lygia Pape, Cecilia Vicuña, Ana Mendieta, Anna Maria Maiolino, Beatriz Gonzalez e Marta Minujín — ao lado de nomes menos conhecidos — como a artista mexicana Maria Eugenia Chellet, a escultora colombiana Feliza Bursztyn e as brasileiras Leticia Parente, uma das pioneiras da videoarte, e Teresinha Soares, escultora e pintora mineira. Mais do que mostrar a enorme diversificação e o peso cultural dessas obras, as curadoras buscaram com a exposição dar o devido reconhecimento à essas artistas.

“Eu digo sempre que meu papel, uma mulher de mais de 50 anos, foi de fazer uma declaração muito simples: há mulheres, hay mujeres, there are women! Isso é uma declaração tão básica. Mas agora o que fazer com essa informação é o dever da próxima geração, perguntar onde estão, quais são as outras histórias, que mais podemos descobrir dessas artistas? A nova pergunta não deverá ser onde estão. Estão aqui. E há muitas mais.” — Cecilia Fajardo-Hill, curadora e historiadora de arte em entrevista para o site artequeacontece

Representatividade

Ana Paula Simioni, professora do IEB-USP

Quando se trata de estatística sobre a participação feminina nas artes, segundo pesquisa da professora Ana Paula Simioni do IEB-USP, as obras de artistas mulheres brasileiras são as mais caras do mercado. A Pinacoteca tem 321 mulheres entre 1588 nomes (20% da coleção); a coleção de Inhotim possui 22 mulheres entre os 99 artistas (22,22%); e a coleção Mário de Andrade tem 22 mulheres entre 135 nomes (17%). Considerando o mercado internacional em geral, os índices mostram uma crescente participação feminina no mercado e em museus nos anos recentes, comparado à década de 1970. As mulheres têm apresentado uma representatividade em acervos e visibilidade no mercado em torno de 22%, mas não tem sido um progresso linear e constante. E apesar da maior inserção, elas ainda ocupam uma posição minoritária no mercado internacional, segundo pesquisa da professora.

Isso mostra que o caminho foi árduo e continua sendo para as mulheres se afirmarem como artistas e produtoras ativas dignas de reconhecimento no meio artístico. O coletivo feminista de ativismo Guerrilla Girls vêm há mais de 30 anos realizando intervenções artísticas nas ruas e em museus ao redor de todo o mundo expondo a discriminação e o machismo no universo das artes, na luta por representatividade. Em fevereiro deste ano, ocorreu no MASP uma mostra com mais de cem pôsteres do grupo denunciando a baixa presença de mulheres e negros em acervos de museus, galerias e coleções particulares.

Cartaz produzido pelo grupo Guerrilla Girls a partir de estatísticas do MASP de 2017. / Fonte: sp-arte.com

A reação do público

Estudante de arte, Verena Santana, 22, veio de Salvador em excursão com sua faculdade para São Paulo e o itinerário traçado a levaria também depois a Minas Gerais. Em São Paulo, segundo Verena, os rumos escolhidos tiveram como critério central a arte. Por esse motivo, ela estava na Pinacoteca e embora não soubesse da exposição que exalta a arte latino-americana produzida por mulheres, nos disse que a surpresa foi gratificante. Por ser estudante de arte, o impacto da exposição em Verena foi bastante importante, disse ela, que possui poucas professoras mulheres e sente, há tempos, falta de ver a mulher ocupando um lugar central de fala dentro da sua escolha a qual seguirá carreira.

Ressaltando a importância de um evento que não ofusca a arte feminina, Verena também mencionou um aspecto importante do hábito de que até mesmo em sua faculdade, grandes obras de arte não são associadas nunca a nomes femininos, ainda que tenham sido produzidos por artistas mulheres. Nesse ponto, a possibilidade de ter diante dos olhos grandes produções assinadas por mulheres teve também a ela um sentido de reafirmação e de sobrevivência. Ver para crer que a falta de visibilidade provocou um hábito que, pouco a pouco, tem de ser deixado para trás.

Além da estudante, falamos também com mais duas mulheres que estavam a apreciar a exposição. Sabendo que a exposição estava prestes a acabar através de grupos em redes sociais, as amigas Dilia Timotino, 56, e Roseli Alves, 59, disseram estar contentes com a temática da exposição e, mais do que isso, afirmaram que é também urgente e necessário que se façam mais exposições como essa mediante a acontecimentos do presente. Dilia relembrou uma fala do Presidente eleito Jair Messias Bolsonaro, que afirmou durante uma entrevista realizada em 2015 que “mulheres deveriam ganhar menos que os homens porque engravidam” e queixou-se que simbolicamente essa frase representa uma reprodução de comportamentos estagnados no tempo. Alertou contra o retrocesso no que diz respeito aos direitos das mulheres e ao final disse ter ainda muitos anos de luta pela frente.

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