O dia em que o jornalismo foi abraçado

E como nós precisávamos desse abraço, num ano tão difícil…

O ano de 2016 foi muito duro. Se você é brasileiro e tem mais de 7 anos, a idade da razão, sabe do que estou falando. Agora, se você é jornalista, brasileiro e tem mais de 7 anos, você sabe melhor ainda do que estou falando.

Trabalhamos como nunca. Cobrimos o impeachment de uma presidente, os primeiros Jogos Olímpicos da história da América do Sul, eleições em todo o país, operações da PF, crise política, crise econômica. Apanhamos (literalmente) nas ruas, afinal a culpa é sempre da imprensa. Imprensa golpista, imprensa petralha, imprensa coxinha, imprensa marrom. A Geni do Brasil!

Enquanto tudo isso acontecia, centenas de nós perdiam seus empregos. Vivemos dias de angústia à espera dos “passaralhos” (como são conhecidas as demissões em massa nas redações). Muitos tiveram que tomar decisões quase impossíveis sobre quem deveria ser dispensado. Outros tantos demitiram amigos. Não foi fácil, para quem saiu e para quem ficou.

Como se não bastasse um ano tão difícil, quando achávamos que estava acabando, chega dezembro com a tragédia do avião da Chapecoense e vinte jornalistas mortos.

Quem é jornalista sabe que, quando estamos em ação, vestimos uma espécie de armadura emocional para conseguir reportar os fatos sem desabar. Quem nunca cobriu uma tragédia e só foi chorar horas depois, no chuveiro de casa? Mas tem horas em que nem essa armadura aguenta. Somos humanos. Somos Paulo Julio Clement, Victorino Chermont, Deva Pascovicci, Guilherme Van Der Laars, Guilherme Marques e tantos outros, que perderam a vida trabalhando. Somos Ari Peixoto, chorando ao vivo no Jornal Hoje. Tem horas em que nós também precisamos de colo, de um abraço. E como estávamos precisando…

O abraço alentador veio de onde menos se esperava. Dona Ilaídes, mãe do jogador Danilo, da Chapecoense, morto no acidente. Em vez de ser consolada, consolou. Ao vivo, numa entrevista, perguntou ao repórter Guido Nunes, do Sportv, como os jornalistas estavam se sentindo ao registrar as mortes de tantos colegas. Diante de um Guido à beira das lágrimas, pediu para dar um abraço nele, “em nome da imprensa”.

Dona Ilaídes, pode ter certeza de que toda a imprensa brasileira se sentiu abraçada pela senhora. Estávamos precisando muito! Ainda está doendo, mas dizem que abraço de mãe cura tudo, né? Sinta-se também abraçada por todos nós. Estará sempre nos nossos corações e preces. Muito obrigada por ser tão grande.

Like what you read? Give Carolina Morand a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.