Cotidiano de uma ansiosa social

O medo desesperado escorria pela parede do banheiro enquanto ela se afogava na banheira.

Poucos segundos. Momentos raros, vapores… Ela ergue a cabeça com violência em busca de ar. A fraqueza dos membros, coração palpitando. Adrenalina e medo. Medo e desespero. Agonia.

Assim como as tardes ociosas de um Janeiro qualquer. Vazia e sozinha. Os dias a sufocavam ainda mais do que todas as tentativas de asfixia. Logo, estaria dopada de sua rotina, sempre em busca de realizações e impulsos. Mas sempre voltando para a antiga poltrona vermelha e postergando a vida, dia após dia.

O tempo passou e só ela não viu.

O medo desesperado paralisou seu rosto no espelho do banheiro. Encarava-se como uma presa. Sua mente borbulhava, fervia, queimava. Dúvidas, medos, medos, medos, medos… ecoavam.

Após as 17h de todos os dias, ela deixa de existir.

O rubor em sua face, o próprio corpo em chamas mesmo pós banho. As ideias confusas. Ela solta um suspiro forte e pesado e se arrasta para o quarto. Penteia os cabelos com raiva. Senta na cama.

Pensa. Pensa. Pensa. Olha pro celular.

Pensa. Respira. Pensa. Checa as horas.

Dez minutos passam e ela finalmente levanta para se trocar. Não perde tempo escolhendo roupa alguma, passa seu batom e borrifa seu perfume. As mãos trêmulas maquiam os olhos e escolhe os anéis.

O coração, ainda disparado, se aperta num nó cego dentro do peito. A visão embaralha. O suor percorre o pescoço e a costela.

Ela olha o celular mais uma vez. Decide não ir. Treme tanto que quase desaba no chão do quarto.

Recebe uma mensagem. Lê, atordoada. Responde que “sim, claro, estou a caminho” mesmo querendo, por Deus, jamais deixar o quarto. O mundo particular que criara.

Sem esboçar um sorriso sequer e mal conseguir formular frases, ela sai do quarto. Com o medo entalado na garganta como espinha de peixe. Com as pernas bambas. A mente parecia um mapa indecifrável, escrito em outro alfabeto.

Ela sai de casa, com o coração surrado, para, finalmente, experimentar o que é existir.

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