Um pedaço de mim

(Escrito em 19/04/2015)

Eu me arrependo. Me arrependo de não ter te visitado antes, me arrependo de todas as vezes que discutimos, ou que pelas costas eu disse que você estava chato. Me arrependo de não ter insistido para retornar, ou de ter escutado meu pai quando “é melhor não atrapalha-lo.” Me arrependo, e como, de ter decidido ir embora naquele sábado a noite, não ter ficado até o último bip. Me arrependo, porque sinto que não fiz o suficiente, e não demonstrei 1/3 do quanto você é/era especial pra mim. As primeiras 19hrs que passei do seu lado, eu tinha medo de encostar em você e te machucar de alguma forma. As palavras que eu tentei te dizer com voz trêmula e coração apertado, não eram nem o começo de tudo o que eu tinha pra falar. Todas as vezes que saí do quarto para ir ao banheiro praticamente arrastada porque não queria te deixar, agora parecem longos minutos que eu perdi. As palavras que eu escrevo pra todo lado, tentando suprir alguma coisa, provavelmente não vão me levar a lugar algum. 
Se eu errei com você alguma vez, se eu te decepcionei, me perdoa por favor. Eu estou longe de ser o melhor ser humano existente, e longe de ser a melhor segunda filha que você poderia ter tido. Mas te digo que te amo como uma, e o vazio que eu estou sentindo sabendo que você não está por perto, é imenso e dolorido. Falta uma parte de mim.
Estar longe do Rio, é estar ainda mais longe de você, do que me lembra você. Tenho passado meus dias na cama pensando: será que se eu entrar em uma bolha e esperar, do nada você vai aparecer? É. É nesse ponto que eu cheguei. Existe uma esperança que do nada você vai aparecer na minha porta, cantando algum samba que só você conhece, e na maioria das vezes eu achava que era inventado. Eu ainda tenho esperança de conseguir um abraço apertado, e no mínimo uma despedida com você acordado. 
Seria mais justo, sabe? Seria mais justo poder te dizer um turbilhão de coisas, seria mais justo se você pudesse ter me visto ali do seu lado, sentada no chão da CTI tentando adivinhar os números no monitor, seria mais justo se você tivesse ouvido eu tentando cantar baixinho alguma música pra você, ou prometendo que estaríamos juntos até o final. Aliás, seria mais justo que nada disso tivesse acontecido e você ainda estivesse aqui, isso sim.
Mas por favor, aonde quer que você esteja, me diga que está bem. Me diga que encontrou o Blue, que vocês dois estão cuidando de mim. Me diga que o céu aí é mais azul, e que você sempre vai estar por perto. Me diga que tem muitas flores e muitos buracos de formiga pra você fotografar. E me diga, o que eu faço agora? Eu sei que deveria me acalmar, seguir com a vida e que logo o tempo vai cicatrizar as coisas. Mas tá difícil demais. Tá difícil ficar sem você. Parece que estou vivendo um longo dia, que não acaba nunca. 
Eu sinto que fiz tão pouco, por alguém que eu amo tanto. Não sei se algum dia vou me perdoar. Não sei se algum dia vou me sentir menos impotente. Não sei se algum dia isso tudo vai parecer menos injusto. Não sei o que será do amanhã. Mas seja como for, o que eu pude fazer, tenha certeza que foi de corpo, alma, e todo amor que eu possuía aqui dentro. E que se em algum momento você se orgulhou de mim, saiba: eu sou essa garota hoje, em grande parte, graças a você. 
Você sempre mereceu, e sempre vai merecer, o melhor de mim.
Eu te amo, tio.

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