2. limpeza profunda

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Eu acordei com a luz do sol e algumas moscas na cara. Olhei meu celular, eram 6h15. Eu tinha dormido por umas dez horas, estava me sentindo mais descansada. Era uma sexta-feira, dia sagrado para os muçulmanos. Eu gosto de sextas-feiras por aqui, que geralmente são dias muito quietos. Muitas pessoas vão à mesquita rezar pois não trabalham, é dia de ficar com a família. Eu poderia dedicar um texto inteiro para falar como eu amo o momento da oração dos muçulmanos. Cinco vezes ao dia, as mesquitas anunciam pelos altos falantes o momento de rezar. Quando eu estava trabalhando em Belém, meu momento preferido do dia era observar os trabalhadores se reunindo às 4h45 da manhã para orar. Eles se organizam em filas perfeitas e parecem estar fazendo movimento sincronizados; às vezes, um homem à frente canta em voz alta. Noutras, é o mais profundo silêncio. Eu nunca havia presenciado tanta paz na minha vida antes de assistir à primeira reza do dia nas ruas de Belém.

Mas por aqui o silêncio profundo foi quebrado pelos latidos de cachorro. Há quatro cachorros na fazenda. Uma cadela com dois filhotes que andam torto e um filhote-não-tão-filhote que está preso por uma corrente na porta do meu quarto. Desde que cheguei, essa cachorro preso está me deixando incomodada. Eu abro a porta do quarto (que eu não consegui fechar à noite, então eu a fechei usando o cadarço do meu All Star preto) e há alguns miúdos de galinha no chão. Nem os cachorros tiveram coragem de comer, aparentemente, e uma nuvem de moscas voava ao redor dos restos de carne. Eca. Fechei a porta do quarto por fora para evitar que as moscas entrassem e subi as escadas para acessar a sala, cozinha e banheiro onde mora Abu Ferez. Eu me lembrei que, na noite anterior, ele me avisou que sairia cedo hoje. Ele visita o filho mais novo dele, Omar, em Amã todas as sextas-feiras. Mais um pai-de-final-de-semana, nada de novo sobre a terra. Eu entrei e encontrei o homem-com-nome-difícil no sofá, babando. Abu Ferez estava na cama dele, e acordou com o barulho da porta. Sabah-il-khyr! Eu respondo “Sabah-il-noor, kifak?”. Ele se levanta, acorda o babão que estava no sofá. Eu pergunto se eles queriam experimentar o azeite de Beit Jala que eu trouxe, junto com o za’tar fresco que comprei em Hebron. Fui pegar as coisas na cozinha e vi que eles tinham usado mais louça e deixado tudo bagunçado depois que fui pra cama ontem à noite. Que ódio. Enfim, eu coloquei água para esquentar, procurei os saquinhos de chá preto, peguei pão e coloquei o azeite e za’tar numa cumbuca de cerâmica palestina. Ele disse que não gosta quando misturam azeite e za’tar no mesmo pote. O outro cara diz que não se importa, e eu digo que particularmente só faço isso pra economizar louça e água.

A cada refeição, Abu Ferez sempre invoca a deus muitas vezes. Nesse momento, o homem sem nome me pergunta se eu acredito em deus. “Hum, às vezes”. A gente dá risada, Abu Ferez se levanta, lava mãos e rosto, e agacha em seu tapete para a reza da manhã.

Aqui na fazenda consigo ouvir o chamado da mesquita, mas não é o mesmo que em Jerusalém. Eu penso que vou acabar me acostumando, mas não consigo não lembrar do chamado potente que eu ouvia do meu quarto quando estava perto de Al-Aqsa. Allah waqba…

Por volta das 8h30, meu estranho hospedeiro entrou no carro e partiu para Amã. Eu verifiquei que ainda estávamos sem eletricidade, e desliguei meu celular para economizar bateria. O cara sem nome é vesgo, e nunca sei quando ele está olhando pra mim. Ele é bem alto e magro, e a voz dele é meio engraçada. Quando eu percebo, ele estava contando várias histórias sobre a sua vida. Nasceu num campo de refugiados palestinos, pois a família fugiu de Jaffa, mas decidiu mudar para Amã porque não queria ser mais um refugiado; para ele, é uma página virada na vida. Mudou-se pro Egito uns 20 anos atrás, onde estudou e trabalhou por algum tempo, depois ele teve algumas organizações de direitos humanos aqui na Jordânia. Também tinha algo sobre ele participar de organizações de esquerda e manifestações, mas eu não estava mais prestando atenção porque os dois gatos da casa, Amélie e Joe, estavam ronronando entre minhas pernas. Ele comentou que foi preso, e eu voltei a prestar atenção. “Por quê?”

- O rei Abdalla não quer que a gente proteste pelos direitos dos palestinos. Basicamente a mesma coisa que em Israel…

Eu falo que vou arrumar meu quarto no andar debaixo, que estava muito sujo. Ele me oferece ajuda, eu aceito. A primeira coisa foi consertar a fechadura da porta.

- Nossa, eu não imaginei que o quarto estava tão sujo.

Ele me olhou com pena. Começamos a tirar as coisas de um canto do fundo do quarto e colocar tudo pra fora. Tiramos o colchão velho e sujo e descobrimos mais um colchão velho e sujo embaixo dele. Tiramos os dois colchões, colocamos para fora sob o chão úmido, porque havia chovido na noite anterior. A3dhi, normal. Por uns 5 minutos, ficamos os dois batendo no colchão com umas almofadas pra tirar a poeira, mas olhamos um pro outro e vimos que não tinha muita solução. “Acho que vou deixar os colchões aqui fora pra tomar ar por um tempo…”

Eu peguei o material de limpeza e avisei o fulano que ia começar a limpeza. Ele de despediu e foi pro casamento do sobrinho dele, reclamando o quanto não gosta de encontrar sua família. Daí que eu me toquei que ele não mora aqui, era só um amigo visitando Abu Ferez.

- A gente se vê semana que vem. Boa sorte! Ma’salama.

Eu comecei a varrer o quarto e a cada minuto eu perdia mais a esperança. “Amanhã eu vou embora desse lugar. Não dá. Como vou morar aqui três meses? Af, eu me odeio. Que isso sabe.” Eu queria muito chorar pra me sentir mais calma, mas nenhuma lágrima saiu. Depois de uma hora varrendo aquela poeira toda, eu desisti. “Preciso tirar TODOS os móveis de dentro, senão é apenas varrer em vão. Farei isso quando tiver alguém pra me ajudar a mover as coisas.”

Voltei pro andar de cima e vi as moscas zanzando pela sala e cozinha. Decidi começar pelo banheiro. Felizmente meu notebook tinha um pouco de bateria e minha lista preferida de faxina. Eu sincerament gosto de lavar banheiro, mas não quando ele está sujo por um bando de velhos sem higiene. Quando o banheiro estava tinindo alguns bons minutos depois, eu senti que precisava tirar uma foto dele, então eu liguei meu celular e tirei uma foto do vaso, do chão, do espelho e da pia. Parecia até meu banheiro de casa agora hehe.

Eu puxei a água do chão do banheirinho e fui deixando escorrer pela cozinha. Na verdade, o andar de cima aqui é um ambiente só: a cozinha, que é mais uma copa, está separada da sala por um único degrau. O quarto de Abu Ferez está delimitado por um biombo de madeira vazado, onde tem algumas fotos dos filhos dele. Eu esfreguei o chão da cozinha de novo, porque ontem não havia conseguido limpar o suficiente. Esfreguei todo o chão da sala. Tirei pó dos móveis. Decidi limpar o fogãozinho-de-escoteiro à gás e o cantinho da pia onde ele fica, e apenas isso me tomou mais de uma hora. Fazia anos que eu não precisava esfregar tanto um fogão, que provavelmente nunca foi esfragado at all.

Eu me toquei que já passava da hora do almoço, e não havia nada para comer. Fucei os armários, e apenas achei um pão amanhecido e um pacote de lentilhas, então fiz uma sopinha. “Felizmente ele tem vários temperos, né.” Enquanto a sopa cozinhava, continuei a faxina. Minha bateria do notebook acabou, e o silêncio me deixou meio assustada. Decidi ouvir o Lemonade, da Beyoncé, que está no meu celular, pra que bateria se não tem wifi mesmo, né? Já era quase 15h quando percebi que não aguentava mais limpar, minhas costas pediram um tempo e eu decidi tomar um banho, fazer um chá e relaxar. “Chega por hoje.” Eu sentei por alguns minutos e observei meu serviço, e me senti orgulhosa. Eu queria entrar na internet e contar pra alguém o que estava acontecendo, ou então procurar outro lugar pra ir. Qualquer contato humano. Enfim, banho.

Como não havia eletricidade, o aquecedor de água e a bomba não estavam funcionando. Meu banho foi um fio de água gelada brindado com o vento frio que entrou pela janela rachada do banheiro. Nenhum dos banheiro aqui tem trava, e isso me incomodou um pouco. E daí eu comecei a chorar: pela primeira vez em muitos anos, só consegui pensar: quero minha mãe, quero minha casa, por que eu vim pra ca? por quê? Eu coloquei uma roupa limpa que na verdade já tinha uma camada fininha de poeira. Eu subi no telhado para ver o por-do-sol por volta das 16h30, mas desci antes da escuridão para procurar algumas velas. Eu lembrava de ter visto um pacote de velas na cozinha, e acendi umas 5 velas natalinas em potinhos de vidro, que espalhei pela casa. Agora, sentada na poltrona e sentindo o cheiro de limpeza com cera derretida, eu me senti relativamente em casa. Eu peguei o livro que eu tinha trazido na mala, Accident nocturne. Foi um presente do meu pai, e achei engraçado que eu nunca tinha folheado o livro antes, mas que estava lendo justamente num momento de escuridão profunda uma história sobre a noite. Coincidência ou não, eu passei pelo menos duas horas lendo sob luz de velas antes de Abu Ferez finalmente voltar de Amã. Eu levantei algumas vezes para trocar uma vela que tinha sido consumida pelo fogo. De repente, todos os eletrodomésticos começam a apitar e acender luzinhas. Eu comemorei a volta à civilização por dentro, mas mantive as luzes apagadas pra observar as velas queimando. Em menos de 5 minutos, ouvi a caminhonete de Abu Ferez chegar e ele entrou em casa, trazendo junto Abu Ghassan, um senhoriznho que eu descobri ser o caseiro/agricultor responsável pelas plantações daqui e da fazenda ao lado.

- Como você está? Fiquei preocupado, telefonando pra Abu Ghassan e acompanhando que você estava sem energia elétrica o dia todo. Você ficou bem?

Eu sinceramente fiquei feliz de ver que ao menos ele tinha a noção que não é da hora ficar sozinha, no meio do mato, sem internet, luz, telefone apenas um dia depois de chegar numa casa desconhecida. Eu não sabia por onde começar, então só disse que deu tudo certo.

- Eu trouxe falafel, homus e pão fresco pra janta. E também helbe, você gosta de helbe?

E então tivemos nosso falafel de reconciliação, eu Abu Ferez e Abu Ghassan, que não fala nenhuma palavra de inglês. Acho que ele tem uns 70 anos, apesar de aparentar ter 90. Também percebi que é preciso gritar pra ele me ouvir.

Após a janta, Abu Ferez comentou o quão limpa a casa estava. Eu me senti uma completa idiota mas orgulhosa ao mesmo tempo.

- Ela deveria estar sempre assim, né? Inshallah a partir de hoje vamos conseguir manter melhor.

Eu duvidei, mas também disse “inshallah”. Meu telefone recebeu finalmente todas as atualizações cibernéticas e eu consegui me manifestar pro mundo: “tô viva!”. Foi até difícil responder pros “e ai?” que eu recebi, tipo, por onde eu começo? Por algum motivo, eu não pesquisei outro lugar pra ir. Eu só decidi que queria ir dormir cedo, então dessa vez escovei os dentes e me despedi. Lyla sa3yda, boa noite. Eu fui pro meu quarto por volta das 21h e lembrei que meu colchão estava do lado de fora e úmido. Eu desencanei e dormi no sofá mesmo, com a coberta empoeirada.