3. legalize

O sol se levantou e eu acordei cedo novamente. Eu não reparei tanto nas moscas que sobrevoavam a cama dessa vez, “não é tão ruim assim.” Eu ainda queria manter o foco na faxina, mas senti minhas costas doer quando me levantei. Coloquei um casaco e subi para tomar preparar um chá preto com sálvia selvagem, que a gente pega aqui no quintal. Enquanto eu fervia a água, coloquei alguns potinhos na mesa de centro, com azeite e za’tar (separados dessa vez) pra mergulhar o pão.

- Sabah-il-khyr, Carolina!

“Bom dia! Dormiu bem?” Abu Ferez vagarosamente se juntou a mim, puxando uma cadeira pra perto da mesinha. A gente tomou café da manhã em silêncio e eu anunciei que ia pra plantação pra arrancar as ervas daninhas. Como a plantação aqui é orgânica, todo o trabalho de combater as ervas que crescem ao redor das nossas plantas é manual. Eu coloquei uma calça mais antiga, peguei uma kefya para proteger o pescoço do vento gelado da manhã e fui.

A plantação fica apenas a alguns metros da casa. Nessa época do ano, achei apenas pés de tomate, pimenta e feijão. Eles cultivam uma variedade de feijão que chamam de “foul”, usado para fazer uma pasta que lembra muito o homus. Basicamente, é um homus feito com feijão, e não com grão-de-bico.

Eu me sentei perto da primeira fileira de pezinhos de pimenta e comecei a arrancar as ervas daninhas, colocando-as num saquinho plástico ao meu lado. E fui catando, de pé em pé, todas as ervas que estão atrapalhando o desenvolvimento das pimentinhas. “Se o campo não planta, a cidade não come”, lembrei dessa frase que tantas vezes passou pela minha linha do tempo no Facebook. Engraçado, como bióloga, sempre quis morar algum tempo no campo e enxergar a fisiologia vegetal que pra mim nunca ultrapassou a porta do meu antigo laboratório. Algumas ervas dava pra arrancar pela raiz, outras se partiam na base, e eu cavucava um pouco pra alcançar a raiz e puxá-la do solo. Melhor assim, demora mais pra elas voltarem a crescer ali. Enquanto isso, algumas lembranças de Belém vieram à minha mente. Lembrei dos amigos, do cheiro de falafel na rua. Lembrei do chá com hortelã que o Majdi, um senhor que tem uma loja de souvenirs, fazia pra mim quase todas as noites, quando eu ia à sua loja para jogar conversa fora. Pensei que eu precisava achar outro lugar pra ir, porque não sabia se aguentaria ficar três meses com o velho doido. E daí não pensei mais nada, minhas mãos entraram no automático e tudo era silêncio, por dentro e por fora.

Acho que devo ter ficado quase 3 horas fazendo isso, porque quando lembrei de tomar água já eram quase 10 da manhã. Fui ao banheiro, lavei as mãos duas vezes para tirar a terra e me sentei na poltrona com um suspiro. Senti minha coluna doer um pouco mais, tomei um gole de água e sorri pra Abu Ferez, que me olhava de canto.

- Você tem alguma ideia do que quer comer pro almoço? Podemos ir pra vila e comprar alguns legumes. Podemos até fazer uma sopa, combina com o tempo meio friozinho. Também quero comprar pão fresco, que acabou.

“Sopa parece uma ótima ideia! Vou só trocar essa calça suja e colocar um tênis, já volto.” E então fomos até o carro dele com os sacos de lixo, para deixar no local de coleta que fica no caminho da cidadezinha. Ele olhou pra mim e perguntou:

- Você sabe dirigir? Eu assenti. E carro automático?

“Nunca tentei”.

- Ah, mas é fácil, senta lá no banco do motorista.

Eu só obedeci sem refletir muito. Quando abri a porta do carro, fiquei perplexa com a sujeira por dentro. Moscas, bitucas de cigarro, um saquinho de lixo em decomposição, terra pra todo lado. O tecido dos bancos tava até meio duro de tanta poeira. Enfim, é uma caminhonete velha, mas não tão velha assim pra estar nesse estado. Eu dei a partida e ele foi me guiando pra eu não atropelar os cachorros e uma árvore ao dar ré. E fomos em direção à Shuneh, a cidadezinha mais perto da fazenda. Pela primeira vez desde que cheguei, voltei a pegar a estrada da ponte King Hussein, que liga o oeste da Jordânia à fronteira com a Cisjordânia ocupada. Para a esquerda, a estrada dá na ponte. Então virei à direita e fomos por cerca de 3 kilômetros até chegar num farol vermelho.

- Pode ir, ele disse. Ninguém aqui liga pro farol. Vira aqui na direita.

Ele me explicou que esse é o cruzamento principal da cidade, e eu não contive uma risadinha. Passamos em frente a uma mesquita antiga e alcançamos a barraca de frutas e legumes frescos. Eu fiquei impressionada em como eles eram bonitos.

- Muita gente pensa que aqui é só deserto, mas a terra do vale do jordão é muito fértil.

Eu assenti e fui escolhendo os legumes pra sopa. Enquanto pegava um a um, fui tentando lembrar o nome deles em árabe. Tomate, batata, cebola, alho, couve-flor, berinjela, abobrinha. “Como diz abobrinha em árabe mesmo? Sempre esqueço essa.” Também pegamos algumas bananas e maçãs. Tudo isso custou menos de 5 JD, moeda local. Deixamos as compras no carro e fomos até um armazém comprar papel higiênico e um spray pra matar as moscas. “Aleluia!”, eu pensei mesmo sabendo que outras moscas novas chegariam depois de minutos. Fomos até um canto onde vendiam pão fresco, diretamente saindo do forno. O menino que pegava o dinheiro e entregava as sacolas suadas com pão pelando devia ter uns 12 anos. Abu Ferez me apresentou pro menino, que me perguntou de onde eu era. “Ana min il-Brasil”, eu respondi em árabe. Ele sorriu e colocou um pão extra na sacola. Então, Abu Ferez me entregou a chave do carro e pediu pra eu esperar. Ele queria aproveitar que estávamos perto da mesquita para fazer a reza do meio do dia lá. Eu zanzei um pouco pelas poucas calçadas de Shuneh, mas me senti muito observada. Percebi de novo que só havia homens andando na rua, então me escondi dentro do carro e aguardei, me sentindo meio tonta.

Uns dez minutos depois, Abu Ferez voltou e sentou no banco do motorista. Ele dirigiu uns metros pra frente pra me mostrar os minúsculos limites de Shuneh, e pegamos a rua que nos traria de volta à fazenda. Ao chegar, subimos as compras e ele me entregou uma banana pra enganar a fome. Eu me ofereci pra fazer a sopa e comecei a lavar, descascar e picar os legumes. Em alguns instantes, eles estavam boiando na água fervente da panela. Eu coloquei alguns temperos que achei no armário, sal e fui sentar no sofá. Logo que sentei decidi levantar e tentar organizar um pouco os armários, pois apesar de ter limpado a cozinha ainda havia muito o que fazer. Comecei um novo projeto que chamei de “organizar sacos plásticos”, que sempre foi uma das minhas atividades preferidas após fazer compras.

Um a um, peguei os sacos plásticos de uma sacola onde eles estavam enfiados e amassados, alisei-os em cima da mesa da sala, e fui dobrando. Pra quem não sabe, existe um jeito muito perfeccionista de se dobrar saquinhos, e eles viram triângulos perfeitos, muito mais fáceis de serem organizados. Conforme fui tirando os plásticos da sacola, fui encontrando lixo misturado aos sacos limpos. papeis engordurados, etiquetas de aeroporto arrancadas de alguma mala há meses. Por isso tudo aqui fede: o lixo está escondido onde menos se espera. Enfim, fiz isso por algum tempo enquanto a sopa cozinhava.

Abu Ferez estava discutindo ao telefone há bastante tempo, quando ele desligou e anunciou: vamos ter visitas, a sopa vai dar? “Sim, tem bastante, certeza que vai dar.” Em alguns minutos dois carros chegaram à fazenda. Os homens foram de carro até perto do projeto, nome que Abu Ferez dá aos arcos romanos que temos aqui, e voltaram. Sentaram fora e conversaram longamente. Eu ouvia as palavras em árabe, mas não consegui identificar sobre o que estavam falando. Enquanto eu cuidava da sopa, eles entraram, sentaram no sofá e abriram uma sacola. Dela, tiraram alguns saquinhos transparentes. Eu olhei uma, duas, três vezes. “Não pode ser…”. Sentei numa cadeira e olhei de novo. Agora os homens contavam bolos e bolos de notas de dinares, a moeda local. Eu tive certeza que eles estavam comprando drogas do meu hospedeiro. Eu passei pela porta pra olhar mais de perto e vi os raminhos perfeitos de maconha dentro dos pacotes. Voltei pra cozinha e fiquei imóvel em frente ao fogão, quase roboticamente mexendo a sopa. Abu Ferez entra, chama os homens pra fora e diz

- Podemos adiar nosso projeto de sopa por uma, duas horas?

“Tudo bem. Você se importa de eu for comendo? Tô com bastante fome..”

- Sem problemas, depois a gente se junta a você.

“Ok! E depois que a gente comer a sopa, podemos tomar um chá e comer o resto do helbe que sobrou de ontem!”

- Perfeito!

Então, eu olhei pela janela e eles se sentaram nas cadeiras da árvore da partilha. Essa na verdade é só mais uma das invenções ~good vibes de Abu Ferez, que é cheio das manias de falar de energias, vibrações e natureza. E eles começaram a fumar maconha, a fumaça subia pra cozinha e se misturava ao cheiro de sopa. “Aposto que é orgânica”, pensei.

A sopa ficou pronta e eu comecei a comer, sentada numa cadeira e olhando pro nada. Na minha cabeça, o rosto mau encarado dos homens com gestos grosseiros manuseando pacotinhos de maconha e notas de dinares. Eu estava assustada mas curiosa ao mesmo tempo. Fiquei pensando em como um homem tão ligado à religião muçulmana poderia estar metido com drogas… Mas pensei melhor e lembrei que eles não podem beber, mas podem fumar. Deus esqueceu de colocar “Não fumarás maconha” no Alcorão.

Eu terminei meu almoço mas continuei sentada imóvel na cadeira. Decidi que precisava falar sobre isso com alguém, então postei em dois grupos do facebook que tinha presenciado o dono da fazenda vender drogas. “Fico feliz ou triste?” Decidi postar em maus um grupo, ligado ao WWOOF, pra ver o que as pessoas achavam, mesmo sabendo de antemão o que iriam dizer. Logo comecei a ler entretida as respostas. Eu dava risada, mas estava tensa por dentro. Percebi que essa era a situação mais inusitada da minha vida, e que daria uma boa história pra contar aos meus filhos. “Um dia, mamãe se meteu numa fazenda no meio do nada com um velho que ela nunca tinha visto antes, e ele era traficante! hehe!”

Fiquei feliz por não ter como minha mãe saber disso, e me perguntei o quão perigoso era ficar aqui. Será que eu vou ter que procurar outro lugar de novo? Abri uma janela do Chrome e comecei a pesquisar uns sites, quando uma voz me trouxe de volta ao mundo real:

- Caroliiiiina, cadê o chá?

Era a voz de Abu Ferez, mas com um tom engraçado. Ele estava chapadíssimo, e veio sorrindo perguntar do chá de novo. “Vou fazer….” respondi, sem querer discutir com alguém nesse estado. Então, os outros homens subiram, mas eles não estavam sorridentes da mesma forma, e percebi que apenas Abu Ferez tinha fumado. Eu preparei o chá e eles se sentaram do lado de fora da porta, numas cadeiras de plástico, e continuaram conversando num tom de voz bem alto, porém descontraído. Levei as xícaras e o bule de chá para fora, um potinho com açúcar também, e coloquei numa mesinha de plástico. Um dos homens, o com cara mais fechada, riu e disse num inglês muito ruim, que demorei alguns segundos pra processar:

- Abu Ferez é um traficante, sabia?

Abu Ferez começou a gargalhar, todos os homens começaram a gargalhar, e eu também ri. Não sabia o que dizer, então falei “A3dhi….” Normal. Fiz cara de que não estava nada surpresa, voltei pra sala e fiquei mexendo no meu computador. Os visitantes terminaram o chá, entraram em seus carros e saíram. Abu Ferez entrou na sala.

- Estou com tantaaaa fome! — seguiu com uma gargalhada que pareceu durar mil anos.

Eu ri, e disse “quer sopa?” Ele assentiu, sentou no sofá com uma expressão quase infantil e ficou ali sentado, as mãos entre as pernas, me olhando como um filhote de cachorro te olha enquanto você enche a cumbuca dele de ração. Eu entreguei um pote com sopa, um prato com pão, um potinho com azeite e disse “Sakhten! Bom apetite!”. Ele começou a devorar a sopa, coloquei a panela com a concha perto dele na mesa, e assisti ele se servindo diversas vezes. Uma. Duas. Três.

- Essa é a melhor sopa que eu já comi. Estou comendo tanto! Nossa, que fome. Não sei dizer se é fome ou se foi a maconha. — As frases tinham um tom muito engraçado, e eu não segurei a risada.

Eu comecei a rir junto com ele, e senti meus ombros, que estavam tensos, relaxarem. Eu me senti naquela brincadeira infantil, quando você precisa confiar na pessoa atrás de você e se soltar em direção ao chão. Você precisa confiar cegamente que a pessoa vai te segurar, e o risco de cair sempre está ali. Eu decidi soltar… e ver se no final eu ia bater a cabeça no chão ou se ia dar tudo certo. “Esse lugar é muito esquisito.”

Abu Ferez continuou sorridente no sofá e acabou deitando e pegando no sono. Enquanto ele roncava, eu naveguei longas horas na internet. Nao sabia o que fazer nem pensar, então assisti a alguns videos no Youtube. O celular de Abu Ferez tocou, ele acordou. Nao sei com quem ele falou, mas não durou muito.

- Nossa, sinto que eu comi demais, mas estava tão bom.

Eu ri. “Shukran, Abu Ferez. Sakhten!” Era por volta de sete e meia da noite. Estava escuro lá fora, e ele me perguntou se eu queria que ele acendesse a lareira. “Lesh la? Por que não?” Ele acendeu a lareira, e a observou com olhos vidrados. Ele alcançou os interruptores, apagou as luzes, e então nós dois observamos o fogo como se ele nunca tivesse sido visto antes. Eu estava com uma coberta nos pés e o notebook no colo, comecei a escrever um texto. “Eu pre-ci-so registrar isso. Quando eu ficar velha vou reler e ver que eu era completamente maluca quando tinha 25 anos.” Então fiquei ali, escrevendo e ouvindo os roncos de Abu Ferez no sofá, e rindo enquanto eu digitava cada passo de como eu vim parar aqui. Comecei pelo primeiro dia, e postei o texto. Fiquei ansiosa pra ver a reação das pessoas, e postei no Facebook. Fiquei olhando pra ver quando as pessoas iam comentar algo. Olhei o relógio e vi que já eram quase nove da noite. Levantei, acendi a luz, escovei meus dentes. Peguei minhas coisas e fui descer pro meu quarto.

Abu Ferez acordou num sobressalto e disse

- Nossa! Dormi. Acho que vou comer mais sopa.

“Eu coloquei na geladeira, é só esquentar.” Ele me olhou com uma cara de preguiça.

- Deixa pra lá.

“Ok, estou indo pro meu quarto então.” Apaguei a luz, fechei a porta e fui dormir.