Talvez capítulo 99

Sextas-feiras costumam ser um dia tranquilo na fazenda. Abu Ferez toma uma xícara de café e vai encontrar o filho dele na capital, Amã. E nós voluntária/os ficamos geralmente sozinha/os. Essa sexta foi diferente, porque eu estava sozinha depois de todo mundo ter deixado a fazenda nos últimos dias. Confesso que ficar sozinha de novo, e lembrar de como foram os primeiros dias aqui, não é a melhor sensação do mundo.

Dessa vez, Abu Ferez sugeriu que eu fosse com ele a Amã para dar um tempo da fazenda. Tomar café-da-manhã com ele e o filho, sentar num lugar aconchegante, talvez ver um filme. Pareceu bem saudável, então eu topei, e antes das 9 estávamos no carro pegando a estrada.

Foi uma viagem tranquila, e conversamos muito sobre os projetos que criamos juntos. Assim que chegamos a Amã, paramos o carro em frente ao prédio da ex-mulher dele. Ele ligou pro filho e falou pra ele descer. Assim que ele desligou, um carro com quatro homens parou em fila dupla e abriu a janela. Um dos homens falou algumas coisas que não entendi, Abu Ferez começou a rir de um jeito nervoso e disse

- é a polícia de novo, acredita?

“Você esqueceu de pagar a pensão?”

- Não que eu saiba, a corte não me avisou. Ninguém me ligou, não sei direito o que aconteceu.

Um dos homens deve ter perguntado pra ele quem eu era, porque ele respondeu “hyye mutatawa bil-mazra’i, ela é uma voluntária na minha fazenda”. Eles me olharam com uma cara feia e Abu Ferez disse que estava me dando uma carona. Eu disse que queria ir pra Al-Webdeh, um bairro hispter de Amã, e perguntei se eles poderiam me deixar lá.

Dois desses policiais à paisana entraram no carro, eu dei bom dia, mas não houve resposta. Abu Ferez deu partida no carro e começou a dirigir em direção a Al-Webdeh, e enquanto perigosamente falava ao telefone. Eu nunca o tinha visto desse jeito, era uma mistura de voz chorosa com uma explosão de raiva… Eu não entendi tudo que ele falou pro filho dele, mas sei que ele explicou que estava novamente sendo detido pela polícia e portanto eles não poderiam mais tomar café juntos. Ele repetiu muitas vezes “por que ela faz isso? Por que ninguém me avisou ontem, pra eu ir e pagar o dinheiro na corte?”.

Eu acho que de tantas drogas ficou impossível ele acompanhar as datas de pagamento e ele se perde. Então, a cada vez que ele perde uma data, no dia seguinte a ex-mulher dele vai à corte, e eles emitem um mandado de prisão. No geral, ele apenas vai à corte e paga a bendita taxa, e pronto, eles cancelam tudo. Mas dessa vez, sem nenhum aviso prévio, numa sexta-feira (dia sagrado para os muçulmanos, em que a corte não abre), não houve outra opção senão ir pra trás das grades até domingo, quando a semana começa e ele poderia pagar o que deve.

Ele me entregou a preciosa chave 4G dele,

- Eu não vou poder usar o celular enquanto estiver lá, então fica com o 4G contigo.

Eu guardei o 4G enquanto tentava expressar minha solidariedade com algumas palavras em árabe, sem muito sucesso. Os policiais ficavam me olhando o tempo todo, e me perguntei por que eles não usam uniformes. “Você tá com a chave da casa, Mohammad?”

Eu quase nunca o chamo pelo primeiro nome, mas dessa vez saiu. Ele me entregou as chaves, encostou o carro na guia e eu desci. “Se cuida”, eu disse meio sem saber o que dizer. Ele agradeceu, disse que me ligaria assim que fosse liberado, mas provavelmente só no domingo. Olhei no celular: 10 da manhã de sexta-feira, 20 de janeiro de 2017. Eu olhei os policiais assumindo o volante do carro de Abu Ferez, dei as costas e entrei no café.

Eu me sentei numa mesa no canto, liguei meu computador, conectei ao roteador 4G e fiquei olhando pra tela. Não sabia exatamente o que fazer, então comecei a escrever pro grupo dos outros voluntários, no Messenger. A maior parte deles também estava em Amã, então Franzi e Thomas responderam que iam me encontrar no café em pouco tempo. Eu lembrei que tinha avisado Johannes que eu tinha pra Amã, então também escrevi pra ele “cheguei, estou no Rumi. Se quiser tomar um café, ahlan wa-sahlan, bem vindo.”

Fui até o balcão e pedi um cappuccino vegano e um bolo de cardamomo. Fiquei tão feliz que Thomas, o voluntário alemão de 55 anos, tinha me doado algum dinheiro. “Quero fazer uma doação: esse dinheiro é pra você ir pra Amã e sair com uma menina, comer algo legal. Ou qualquer coisa.”

Eu ri por dentro, voltei à mesa e reinstalei meu Tinder. Eu havia até puxado assunto com algumas garotas desde que cheguei, mas meu celular estava com pouca memória e acabei deletando o aplicativo. Eu olhei que tinham algumas mensagens que eu nunca respondi, então resolvi escrever pra uma mina dos estados unidos que mora aqui há quase dois anos.

Falei que estava em Amã e se ela queria tomar uma cerveja. Pra minha surpresa, ela topou, e combinou de me encontrar ali no café por volta das três da tarde.

Eu pensei que não tinha me preparado pra passar a noite, mas não liguei muito. Naveguei por alguns minutos na internet, pesquisando vagas de emprego ou estágios, e Franzi chegou. Ver um rosto conhecido me deixou quentinha por dentro, nos abraçamos e ela sentou. Eu descrevi brevemente o que tinha rolado com a polícia, mas ela não me pareceu muito interessada. Eu perguntei quando ela ia pro deserto, pois eu pensei que ela já deveria estar trabalhando como voluntária em Wadi Rum.

- Bom, eu deveria ir com a Mia, mas ela sumiu faz uns dois dias. Ontem eu e a Lydia passamos o dia tentando encontrá-la e descobrimos o endereço de onde ela está, mas acho que ela está usando drogas de novo. A mesma história de quando ela foi mantida em cativeiro na Palestina, lembra? Alguma droga pesada.

Eu respirei fundo e não consegui responder nada.

- Na verdade, ela não contou pra todo mundo, mas naquela vez em que ela ficou usando meta por 10 dias e não conseguia ir embora, perdeu o vôo de volta pra Inglaterra, e tal… ela também foi estuprada.

Ficamos em silêncio por algo que pareceu uma eternidade.

“Você tentou ligar pra ela?”

- Sim, mas ela não atende. Consegui falar com o cara com quem ela está, ele colocou ela no telefone, então ela tá provavelmente ok.

Foi muito difícil encontrar assunto. Ficamos pensando em como ela não se ama. Ou talvez tenhamos pensado em coisas muito diferentes, mas parecia que a gente conversou um tanto sem ter falado uma palavra.

Eu fiquei um pouco mais nervosa do que eu já estava, e pedi pra Franzi tentar ligar pra ela de novo. “Meu celular tá sem crédito.” Ela discou o número e pareceu surpresa quando Mia atendeu.

- alô, Mia? Nossa, graças a deus, como você tá? Ahn… escuta, a gente tá aqui no Rumi, aquele café, lembra? Então, você não quer encontrar com a gente? Ah, tudo bem. Vamos ficar aqui. A gente te liga de novo, se cuida tá?

“E aí?”

- Ela disse que está sem internet e sem crédito, então só podemos nos falar se a gente ligar pra ela. Ela deve estar meio de ressaca de ter bebido e se drogado, mas ela tá bem. Não sei como vou fazer, se devo ir pro sul sozinha, se espero ela ir comigo. Mike já me ligou algumas vezes pra saber quando vamos chegar. Mas acho que vou acabar indo sozinha se ela não aparecer…

Johannes chegou, e se juntou à nossa mesa. Estávamos agora sentados do lado de fora, no sol, e eu nem acreditei que estava quente em Amã. Eu estava só de camiseta, e ficava tentando olhar de canto pra uma moça de cabelo curto na mesa ao lado.

Thomas chegou alguns minutos depois, e ficamos conversando por algum tempo. Ele falou que está na casa de um japonês, Hide, e que ele também dobra sacolas plásticas.

- Você viu a foto que te mandei? Vocês dobram usando exatamente o mesmo padrão. Quão doido é isso?

Eu ri e concordei.

- Aliás, ele disse que queria te conhecer. Eu falei que não achava que você ia se interessar, e ele perguntou “mas tem certeza que ela não é…. bi?” Eu respondi que tinha certeza, e acho que ele ficou meio decepcionado. Talvez o sonho dele fosse conhecer uma garota que também dobra sacolas plásticas.

Gargalhamos juntos e decidimos ir no restaurante barato em frente ao café pegar uns sanduíches de falafel, porque comer no Rumi é muito caro. E então voltamos à mesa no sol, Thomas e Franzi começaram a dobrar alguns tsurus, Johannes foi embora e eu tentei me distrair, fingindo que não tava nervosa com a mina que vinha me encontrar.

Ela me mandou uma mensagem falando que logo chegaria, e eu entrei no perfil dela pra olhar as fotos de novo e reconhecê-la. Ela parecia ser muito bonita, apesar de não ser meu tipo. Olhos azuis, algumas sardas, cabelo loiro, liso e comprido. Não é meu tipo nem de longe, pensei. Mas eu não tava em posição de ser exigente, então bora lá né. Além disso, temos vários amigos em comum, que eu conheci na Palestina, ela morou no mesmo campo de refugiados que eu, pelo menos um assunto legal vamos ter.

Meu celular tocou, vi “Katy Tinder” escrito na tela. Era ela perguntando em que mesa eu estava, acenei, desliguei e a cumprimentei com um abracinho torto e estranho.

- Nossa, você não parece nada com as suas fotos!

Não sabia se era um elogio, se era ruim, e não lembrava exatamente qual foto estava no meu Tinder, então eu não respondi e a apresentei pra Franzi e pro Thomas, que estavam na mesa me olhando com uma cara engraçada.

- Acho que vou pegar um falafel ali também, bora?

Fomos pegar o falafel, e perguntei se ela sabia onde queria ir.

- Tem um café que é o único lugar gay da cidade, e eles têm uma mini livraria na entrada! Quer ir?

“Nunca ouvi falar, vamos!” E fomos ladeiras acima e abaixo com o falafel na mão, tentando encontrar um assunto a cada esquina. Foi uma caminhada um pouco mais intensa do que eu esperava, e minha bendita alergia começou a pipocar. Senti meu rosto ficar todo vermelho, meus braços cheio de pelotas, e eu me odiei por alguns minutos. Ter doença autoimune não é a melhor coisa do mundo, mas vida que segue. Tentei explicar o que era sem entrar muito em detalhes, e ela pareceu satisfeita com a explicação, apesar de um pouco preocupada.

- Ah, então você também é bióloga! Eu acabei indo pra área de saúde pública.

Ela contou sobre como ela veio parar em Amã, com o que ela trabalhou antes, como foi encontrar um emprego massa por aqui. A gente tem muito mais coisas em comum do que eu pensei, mas eu senti que a conversa não fluía de um jeito bacana.

Chegamos no bar, tomamos uma cerveja. Continuamos conversando e vendo que tínhamos coisas em comum, mas sempre alguma coisa meio estranha. Eu primeiro pensei que talvez ela fosse só bonita e legal, mas não meu tipo, então se pá não me empolguei muito. Talvez eu estivesse meio sem prática, já que não saía com ninguém desde agosto. Tentei manter o foco em não completar seis meses sem transar, e continuei sorridente e mantendo um papo interessante. Odeio flertar em inglês, sinto que não sou muito boa nisso, e quando acabamos a cerveja, ela me propôs duas coisas.

- Podemos ir na casa desses amigos que querem fazer um jantar às seis, ou podemos ir pra minha casa e cozinhar algo lá e depois encontrar o grupo. O que você acha?

Eu obviamente falei que era melhor ira pra casa dela, então pagamos a conta (a cerveja mais cara da minha vida, por sinal) e andamos até o centro. De lá, pegamos um táxi compartilhado (também chamado service) e chegamos à casa dela.

Era um prédio antigo, provavelmente dos anos 60, e o apartamento era logo no térreo. Eu fiquei bem impressionada com o tamanho dele, várias salas, uma cozinha enorme, quatro quartos, dois banheiros.

“Quantas pessoas moram aqui mesmo?”

- Em teoria quatro, mas somos só três agora. Uma menina voltou pros estados unidos e achamos que ela não vai mais voltar, ela levou tudo com ela. Tem uma outra garota que agora está viajando com os pais, mas só por uma semana, e a Rebecca.

Uma mina com cara de americana padrão e voz fanhosa veio me cumprimentar, era a Rebecca. Ela me lembrou o filme Meninas Malvadas, mas uma versão esquerdista-feminista da Regina George. E com roupas hispters. Ela reclamou um pouco do namorado, disse que estava com TPM e foi tirar um cochilo.

Eu sugeri que a gente fizesse algo fácil pra não dar trabalho, e decidimos fazer mini pizzas veganas no pão sírio. Assim que as tiramos do forno alguém bateu à porta. Eram dois amigos, Amber (também dos EUA) e Tariq, jordaniano. Descobri que Amber também morou em Belém quando eu estava por lá, e encontramos amigos em comum. Ela fez estágio com o coordenador do meu programa, mundo pequeno.

Ficamos por algum tempo ali na mesa da sala, comemos, e a Rebecca voltou da soneca dela. Katy disse que ia ter uma festinha na casa de um amigo não muito longe, e Tariq ofereceu carona pra nós. Chegamos na casa de dois caras cujo nome nem lembro, porque assim que eu entrei na casa uma mina bêbada começou a falar com o rosto muito perto do meu nariz e eu fiquei meio desconcertada.

- A Carol também morou em Belém, Olivia!

- Você morou onde? Em Aida? Eu também? Mentira!!

Descobri que ela morou também na casa de Islam, com a família que me acolheu em 2015. Ela continuou falando com o rosto muito perto do meu, eu disfarcei uma risada, e senti que a Katy ficou meio desconfortável.

- Ahh você tava com o EAPPI? Sabe o Robert?

“Seeeei! Ele estava em Yanoun!”

- Sim! Ah, vamos falar pra ele que a gente se conheceu!”

Mandei uma mensagem pro Robert “Adivinha quem acabei de conhecer… a Olivia!” Ela abriu um sorriso bêbado e começou a falar como adora o rapaz, que ela foi banida de Israel junto com a namorada dele, que ela fez parte do início do namoro dele, etc etc etc. Fomos até o sofá, todos nos sentamos, Olivia de um lado, Katy de outro. Robert me mandou uma selfie sorrindo, então a Olivia pegou meu celular e primeiro mandou uma selfie borrada, depois conseguiu tirar uma selfie sorrindo e enviou. Ele mandou um “ah bom rolê pra vocês” e eu comecei a tomar o wisky com gelo que me foi servido. Só bebidas pesadas aqui, pensei.

Depois de dois copos, eu estava mais alegrinha e decidi perguntar que ela era hétero, o que gerou o melhor print pra resumir minha vida sexual nos últimos meses:

“Ela é hétero?”

- Sim :|

“Vida é uma bosta”

- Sinto muito :(

“Tudo bem. Estou num encontro com a amiga dela”

Eu certamente gostei mais da Olivia do que de Katy, e isso me deixou um pouco triste, mas tudo bem. Acho que o problema da minha date é meio que uma falta de… sal? Minha mãe fala alguma coisa assim.

Na maior parte do tempo, eu só senti que o dia tinha sido demais pra mim, que eu estava muito cansada e queria ir pra casa e dormir. Os assuntos foram de porte de armas à técnicas de escalada, já que o grupo se conhecia porque fazem escalada juntos.

Eu tentei apenas responder quando me perguntavam algo, e fiquei ali bebendo meu wisky e sonhando com um travesseiro. Pior que eu não quero transar com ela, pensei. Que truqueiro esse destino…

Pouco antes das onze todos se levantaram e entendi que íamos embora. Vi que estavam fazenda uma vaquinha pra bebida e fui ao banheiro. Tá loko, não tô rica assim não. Pelo jeito funcionou e entramos num uber. Eu nem sabia que tinha uber em Amã e a curta viagem foi feita em silêncio.

Eu já sentia que não queria conversar muito. Chegamos à casa delas, Rebecca foi pro quarto dela, e Katy me mostrou o quarto que estava vago. Eu coloquei minha coisas lá, e ela comentou como a amiga tinha já levado tudo embora, mesmo sem ter declarado que não voltaria mais. Ela deixou só essa jaqueta preta de couro falso, é o seu tamanho olha.

Eu amei a jaqueta, e ela disse que eu poderia ficar com ela. Melhor coisa que me aconteceu hoje, pensei.

Ela disse de um jeito fofinho

- vamos pro meu quarto!

Entramos e eu fingi que estava interessada em cada coisa na parede, olhei cartão postal por cartão postal. Talvez se eu cozinhar ela ela desencane. Vi que ela fechou a porta e fiquei meio com preguiça… ela sentou na cala, eu sentei na poltrona e fiquei tentando puxar assunto a cada silêncio em que ela me olhava nos olhos. Eu reparei que as unhas dela eram meio grandes, e bateu uma preguiça ainda maior. Após uns talvez vinte minutos de conversa furada, eu não aguentava mais. “Que hora são? Acho que vou dormir, estou tão cansada… acordei às seis… não tô mais acostumada a beber assim, beteu um sono…”

- Eu também estou meio com sono…

Eu me levantei e andei em direção à porta, tentando escapar e dar um boa noite constrangedor. Ela me olhou meio confusa, sentada na cama dela.

- Você não quer tipo…. ficar aqui?

“Não, me desculpa, eu tô muito cansada mesmo. Até amanhã.”

Saí, fechei a porta, andei pro outro quarto, fechei a porta e senti que todos meus músculos estavam travados. Me senti super culpada, mas ao mesmo tempo eu não queria fazer nada por obrigação. Fiquei pensando na mina que dividia quarto comigo em Belém e em como toda noite eu torcia pra rolar algo entre nós. E agora estou aqui com uma mina me chamando pra cama dela e eu tô dizendo não. Preciso escrever pra Bussa e dizer que eu perdi o controle da minha vida, guarda um pudim pra mim, amiga. Eu ri meio alto, derrubei meu celular no chão e a tela rachou mais um pouco. Escrevi pra algumas amigas o que tinha acontecido, me senti um pouco menos culpada, me enrolei no coberto. Era mais de meia noite. E peguei no sono.