Um texto perdido no meu computador


Encontrei este texto quando estava organizando meus arquivos no computador. Não sei por que ele ficou esquecido por mais de dois meses… Acho que algumas lembranças assim são pequenos presentes que encontramos num dia chuvoso, né? Bateu a nostalgia, a saudade do café com cardamomo e de alguns rostos familiares…


Ainda estava sentindo na boca o sabor doce do cigarro de cravo quando a Mesquita quebrou o silêncio com a última reza do dia. Alguém chamou à porta. Era Ahmed, que me chamou para “comer algo gostoso com a família”. É difícil não sorrir quando a gente percebe que já é parte da família, mesmo estando num campo de refugiados palestinos em Belém. Desci à casa de Islam, nossa mãe adotiva aqui em Aida, onde estou morando pelos últimos 16 dias, para encontrar a família reunida em volta do aquecedor e de uma bandeja de docinhos veganos de canela e chocolate. Sidra, ou Soso para os íntimos, estava com um sorriso ansioso e serelepe e me presenteou com uma aula particular do alfabeto árabe, enquanto Islam, Ahmed e Bto me ensinavam algumas frases e riam do meu sotaque. Há alguns dias, Islam havia nos falado que precisamos sorrir para as crianças, apesar das circunstâncias aqui na Palestina. Naquele dia, me parecia difícil continuar esboçando sorrisos quando eu apenas tinha vontade de chorar com os depoimentos das pessoas que cruzaram nossa jornada política e gastronômica na Terra Santa. Mas, aquecida ali na minha casa provisória, eu entendi que sorrir é a melhor maneira de resistir. Soso tem sete anos e nunca usa meias e, sentindo esse frio de 5 graus que invadia a casa, fantasiei que é o coração dela que aquece os pés. De qual outra forma ela poderia ter pés tão quentinhos enquanto corre no chão congelante?

Eu sabia que deveria escrever um texto para relatar de forma breve minha jornada com Sandra, Marina, Dani e Marcelo aqui na Palestina e pensei muito sobre o que eu deveria falar. Nesta madrugada insone regada à chá de sálvia, eu não poderia escrever este texto sem falar da resistência palestina que, na minha visão, tem como base o amor. Amor à terra, amor à cultura, amor à língua, amor à vida. Eu percebi nesses últimos dias que a ocupação pode tirar muitas coisas de um povo, mas não pode tirar o amor. E amar é a forma mais bonita e honesta de resistir ao terror e à injustiça. Nas últimas duas semanas, pude encontrar ativistas palestinos e israelenses que lutam contra a opressão dos soldados e do governo de Israel, que lutam contra as violações sistemáticas dos direitos humanos e do direito de retornar à terra natal. O mais impressionante, porém, é como a vida persiste em meio a muros de cimento e arame farpado. Assim como a vida brota de um solo seco e nos surpreende com uma cor verde e exuberante no meio do deserto, os sorrisos aqui nascem nos momentos mais inesperados e acalmam nossas mentes desesperadas. Em alguns momentos, foi difícil ter apetite para devorar o melhor falafel do mundo ou para beber o café perfumado a cardamomo. Em outros, a gente riu de besteiras e cantou as músicas mais esdrúxulas para não deixar que o cinza da ocupação escurecesse nossas almas. Não se pode dar ao opressor aquilo que ele deseja: a tristeza. A vida segue em frente. Todas as manhãs bolinhas de falafel continuam sendo fritas na vendinha aqui do campo, os agricultores continuam indo ao campo cuidar de suas oliveiras sabendo que a qualquer momento os homens de verde podem chegar e levar com eles o colorido da terra. As crianças continuam indo à escola, os comerciantes continuam indo às suas lojas para convencer os turistas a comprar as mais lindas cerâmicas tradicionais palestinas. E a história continua a ser contada e vivida. Afinal, são as pequenas histórias individuais que compõem a história de um povo. E é nossa responsabilidade passar as histórias para frente. Eu chorei em momentos difíceis e sei que vou chorar quando chegar a hora de deixar esta terra acolhedora, onde felizmente ficarei até o final do mês. Mas eu sempre contarei as histórias com um sorriso no rosto, porque vou me lembrar da resistência, das crianças, das oliveiras, dos aromas. E, quando eu pensar no muro, vou visualizar como tudo pode ser diferente sem ele. Quando o muro cair, e tenho fé de que ele vai cair, os sorrisos serão mais leves e despreocupados. Das poucas palavras de árabe que aprendi, a que fica marcada mais profundamente é a resiliência. Summud.

Texto escrito durante minha visita à Palestina em dezembro/2015.