A quem acolher?

Todo início de ano letivo ouve-se muito falar de ADAPTAÇÃO. Questionamentos sobre a entrada das crianças no ambiente da creche e/ou escola permeiam muitas das pesquisas e conversas de educadoras/educadores durante esse período. Existe uma grande preocupação acerca de como as crianças vão reagir a novidades, tais como espaço físico, profissionais da instituição, rotina, alimentação etc. As/Os profissionais que receberão as crianças começam a pensar em formas de recepcionar a turma, de acolher as crianças, de fazê-las se sentir bem, confortáveis e confiantes. Criam jogos, preparam atividades, brincadeiras, oferecem colo, abraços e carinhos.

Realmente não há nada de errado nisso, ao contrário, já que a criança é mesmo o mais importantes das creches/escolas. Mas sugiro que paremos para pensar um minuto sobre outro elemento crucial para que tudo se complete: a família. Se entendemos que a criança está passando por todo um mundo novo quando entra na creche/escola, por que não lembrar que esse mundo novo é também vivenciado por sua família? Se, de uma hora para a outra, a criança precisa aprender a viver bem sem a presença dos familiares por horas todos os dias, a família também precisa aprender a viver horas e horas sem a presença daquele “serzinho” maravilhoso que até agora havia consumido quase todas as suas forças, atenção, esforços e dedicação constante. O caso é que se espera que as crianças chorem, gritem, esperneiem etc., mas às famílias não é dado o mesmo direito de manifestar desconforto, tristeza, frustração e medo. E quando há alguma resistência, esta não é bem aceita. Se uma mãe, um pai, uma tia ou um avô demora para deixar a criança aos cuidados exclusivos da educadora/educador, se a entrega da criança não é tão fácil e desprendida, se o familiar pergunta demais, ou oferece algum tipo de resistência, logo surgem olhares, críticas e até queixas: “Mas por que ele não sai logo da sala?”, “Mas ela não vê que assim a criança chora mais?”, “Mas já não tá escrito na agenda? Por que pergunta de novo?”. Por mais repetitivas e cansativas que essas questões aparentem, por mais que certas atitudes possam parecer que apenas atrapalham a adaptação das crianças, é importante pensar: será que é difícil só para os pequeninos?

Fiz uma pesquisa informal entre conhecidos que já passaram ou que estão passando por esse processo juntamente com suas filhas/seus filhos. Quando perguntei como se sentiam nessa fase, algumas das respostas recebidas mostram um pouco das emoções e sentimentos de tristeza e culpa que as famílias sentem ao deixar as crianças na creche/escola: “CHOREI HORRORES”, “SINTO QUE NINGUÉM VAI CUIDAR TÃO BEM DELE QUANTO EU”, “SENSAÇÃO HORROROSA DE ABANDONO”, “EU SOFRIA MUITO MAIS QUE ELA”, “ME SENTIA CULPADA POR FAZER COM QUE ELE PASSASSE POR ISSO”, “TINHA MEDO DE ELE SENTIR QUE EU NÃO QUERIA MAIS A COMPANHIA DELE”, “SENTIR MUITO MAL DE DEIXAR ELE LÁ COM ESTRANHOS”,, “EU SOFRI POR TER HORAS ‘ROUBADAS’ EM QUE GOSTARIA DE ESTAR COM ELE”, “EU TENTAVA SER FORTE, MAS QUANDO ESTAVA LONGE DELE, ACABAVA DESABANDO”, “ SÓ ME RESTA SENTIR MAL POR PRECISAR DESSE SERVIÇO”.

Depois de ler todos os relatos, não foi difícil de entender que o sofrimento e a adaptação era também da família, que não era só a criança que precisava ser acolhida. Imagine que você está deixando seu filho/sua filha com pessoas estranhas diariamente. Que, de uma hora para a outra, essas pessoas serão as responsáveis por cuidar, alimentar, brincar, conviver com ele/ela, executar tarefas que eram só suas até agora. Imagine que você precisa racionalizar que deixar sua filha/seu filho com essas pessoas estranhas é o melhor que você pode fazer para ela/ele, que essas pessoas são estranhas agora, mas que logo não serão mais, que essas pessoas são profissionais e sabem exatamente o que fazer. Mas tente imaginar que você precisa pensar isso tudo vendo sua filha/seu filho chorando e tentando correr pro seu colo. Ou então tente imaginar que seu filho/sua filha entrou super bem na escola, não olhou para trás e nem parece sentir sua falta.

Sugiro então uma reflexão: Durante o período inicial do ano letivo, quem precisa se adaptar? Quem precisa ser acolhido? Será mesmo que são só as crianças?