A solidão da criatividade feminina em “Paterson”, de Jim Jarmusch

Eu adorei “Paterson” como adoro “Amantes Eternos” (2013), também de Jim Jarmusch. Acompanhar o processo da palavra e a rotina pacata de Paterson, personagem homônimo, foi gostoso a ponto de querer me mudar do Rio de Janeiro e, quem sabe, curtir a simplicidade de um caderno só de poemas. A Yasmin Nigri, poeta e amiga, escreveu um lindo texto sobre a poesia do ser que pode ser conferido aqui.

No entanto, fiquei encantada e incomodada com Laura, sua companheira. Laura, descrita como sonhadora em algumas resenhas que li, é artista plástica, cozinheira, aspirante a cantora country e, ainda por cima, grande incentivadora da poesia de Paterson, além de uma mulher estonteante e compreensiva. No entanto, quem incentivaria suas pinturas, suas cortinas? Quem a ajudaria a se organizar diante da multiplicidade de talentos? Com quem ela conversava durante o dia, quando Paterson trabalhava e cruzava com outras histórias no caminho?

Senti uma solidão no peito vendo o filme. Laura aparentemente não tem amigos — Paterson pelo menos tem sua rotina no bar — e parece concordar com tudo o que o companheiro diz, como uma musa perfeita pro poeta. Irreverente em suas pinturas e figurino, não reclama de nada e chega a parecer infantilizada em alguns momentos, como quando decide comprar um violão. Laura, indiscutivelmente, é a criação de uma mente masculina. Laura é a musa perfeita: sempre bela, sempre a mesma, sempre diferente.

Embora, na minha parcial visão, o diretor tenha sido muito feliz ao demonstrar a simplicidade e as inegáveis trapaças do universo masculino, como quando o dono do bar rouba sua mulher ou quando dois homens aparentemente frustrados narram suas quase-aventuras sexuais com mulheres que se insinuam para eles, o filme é um retrato do universo falocêntrico no qual a criatividade feminina é vista como acessória e doméstica enquanto a criatividade masculina é estimulada por nós, mulheres, e ganha status de arte mercadológica. Laura chega a sugerir que tentaria reconstruir o caderno de poemas de Paterson quando este é comido por Marvin, o cachorro. Essa sugestão não é nada ficcional. Os grandes escritores da Literatura foram construídos com o suporte emocional e cotidiano de grandes mulheres, que tiveram suas criatividades em lugares menores por não terem, da mesma forma, alguém que reservasse o seu precioso tempo pra fazê-las crescerem de tamanho e “ganharem mundo”, permanecendo o espaço da casa como o principal espaço de criação feminino.

Esse texto não é uma crítica ao filme, e sim uma provocação em relação ao lugar quase clandestino que a criatividade feminina ocupa na sociedade, na vida doméstica de muitos casais e famílias e no próprio imaginário da mulher. As cenas de cumplicidade e companheirismo, como quando Paterson ajuda Laura a colocar os cupcakes no carro ou apoia seu aprendizado no violão me emocionam, e desejo que elas sejam uma constante. Desejo que os homens percebam o quanto nós fomos estimuladas a estimulá-los e quando ouvirem um “publique seu poema” entendam que isso também significa “gostaria que você também apoiasse minhas criações pois me sinto insegura e solitária como você”. É importante que a gente possa corrigir essas questões juntos, pois todos saem ganhando se o trabalho individual é engrandecido coletivamente e as frustrações desaparecem, deixando mais espaço pro amor e pra liberdade.

Esse texto não é uma crítica à solidão, e sim um manifesto a favor da criação. “Paterson” é um elogio à autenticidade e ao momento presente, como quando, em seu luto, o motorista de ônibus ganha um novo caderno de presente, símbolo de um novo ciclo pra si e pros seus poemas. Desejo pra todas nós, mulheres, uma escolha verdadeira de onde queremos empregar nossa energia criativa. Sim, nosso corpo caloso que liga o hemisfério direito ao esquerdo do cérebro é mais espesso. Sim, fazemos mais coisas ao mesmo tempo. Sim, em um dia queremos vender cupcakes e noutro dia queremos ser estrelas de rock. Paciência e companheirismo pra todas nós, que temos muito que aprender pra sermos cada vez mais nós mesmas — (só) musas, nunca mais.