Por que eu deveria (só) conversar sobre relacionamentos?

nota: texto escrito por uma mulher cis sobre experiências hetero

Digamos que eu estivesse falando de uma situação imaginária: encontro um amigo com quem tenho vários interesses em comum. No entanto, pra minha surpresa, ele me chama pra conversar sobre o seu relacionamento. Ok. Conversamos. No momento seguinte, o vejo conversando tranquilamente com outros amigos a respeito de música, arte e trabalho, como se aquilo que ele tivesse me contado só o afetasse em uma determinada esfera, que ele partilhasse na vida íntima somente com outras mulheres. Me sinto esquisita sem saber o porquê. Por um lado, valorizo sua confiança e nossa intimidade; por outro, me sinto excluída dos outros assuntos, que nunca são divididos comigo. Parece verossímil?

Dois dias antes do Dia dos Namorados, em um ataque de inércia em pleno sábado, estou eu de frente pra televisão assistindo um filme na Globo chamado “Ponte Aérea” (àquela altura, eu me lembrava que meu companheiro não se sentia bem e não tínhamos nenhuma previsão de “comemorar” o que quer que fosse). O filme mostrava um casal se conhecendo de forma inusitada e depois mantendo um relacionamento em ponte área Rio-São Paulo. No entanto, quando o carinha (o simpático Caio Blat) perde o pai, sem maturidade pra lidar com a dor, estupra a namorada (sim, porque se ela não quis e não gostou, o nome é estupro) em uma cena crua e volta pro Rio sem dizer nada, com dificuldade em viver o luto. A moça fica sem entender nada. Ele não atende ligações. Em sua casa no Rio, seus amigos o incentivam a “pegar uma mina” e o ofertam cerveja e maconha meio a festinhas diárias. Pela inércia, o moço “pega uma mina” e se anestesia com cerveja e maconha. A sua namorada, em São Paulo, trabalha angustiada com a situação e não sabe de notícias suas. Depois, o moço é convidado a expor em SP, onde a namorada já o tinha incentivado a expor muitas vezes. Ele não a comunica, talvez por medo da sua reação a essa altura. Ela decide ir mesmo assim pra ver como se sentiria.

O filme, com toda a cara de comédia romântica embora o final não afirme um retorno (eu, pelo menos, ficaria indignada) parecia, pra mim, um filme de terror. A cena do estupro, o descaso com o relacionamento, a incapacidade de lidar com as próprias perdas e a negligência com a dor do outro me assustaram naquele sábado à noite, onde finalmente pude perceber uma coisa que eu estava vivendo no meu próprio relacionamento (que o filme me ajudou a manifestar um fim, tarefa geralmente feminina): homens não foram educados emocionalmente a lidar com relacionamentos como um trabalho orgânico, desafiador e prazeroso. A crença inconsciente (talvez nem tão inconsciente) e coletiva do “universo masculino” é: “deixa acontecer naturalmente”. Quando um obstáculo surge, seja na mente ou no plano prático, eles simplesmente desviam e continuam andando. Somem, pra ser mais exata. Por quê? Porque é mais fácil. Ninguém vai puni-los por isso. Haverá sempre uma companhia feminina pra entendê-lo/acolhê-lo e/ou amigos pra fazê-lo não tocar, pelamordideus, naquele assunto. Sumir é fácil, por que fariam outra escolha? Em contrapartida, devido a tal herança e com o desejo de aprofundar uma relação, a mulher se torna socialmente insegura e frustrada, com medo do abandono e da rejeição, propensa a fazer coisas que não faria se estivesse emocionalmente saudável, só pra manter relações.

Logo, se um homem decide fazer uma outra escolha, é natural que ele só se sinta à vontade pra falar e pensar relacionamentos se estiver perto de outras mulheres. Assim, com um paradigma um tanto de “caixinhas”, suas amigas mulheres passam a ser atenciosas conselheiras e confidentes quando não estão legal com suas parceiras ou precisam de uma dica pra não magoar a moça feminista que estão cortejando no momento. Da mesma maneira, se me encontro com minhas amigas, o “natural” é que conversemos sobre nossos relacionamentos. Como tá fulano? E como ficou aquela história? E como ficou a história de fulaninha? E, quando nos damos conta, estamos tão entretidas em analisar as nuances e minúcias de cada caso que nem conversamos sobre os nossos últimos e maravilhosos projetos.

Será uma generalização? Experimente nos seus grupos e comece a observar a dinâmica das conversas. Observe grupos só de mulheres, caso você seja mulher, e grupos mistos. Simplesmente observe. O que eu observo é grave, pois faz com que mulheres se sintam estúpidas trabalhando sozinhas por seus relacionamentos; alimentando-os, pensando sobre eles além de, fatalmente, gastarem um tempo precioso de sua terapia falando sobre isso (em uma classe privilegiada onde tal mulher tem um(a) terapeuta pra ouvi-la). Além do mais, eu costumo sentir tanta alegria quando ouço um homem falando sobre seu relacionamento que não consigo evitar de deixá-lo desenvolver o assunto e ver como ele enxerga a questão.

Vi sozinha Mulher-Maravilha. Chorei. Queria que o filme tivesse sido mais profundo no que diz respeito à questão da heroina, mas os momentos sutis em que ela foi desafiada (QUASE) me bastaram como alegoria da resistência cotidiana a qual somos submetidas pra não definhar. Não foram as mulheres que fizeram guerras ao longo da História, de fato, e não me envergonho por me interessar tanto pela temática das relações humanas. Vendo “Tartaruga Vermelha” (uma animação francesa premiada que recomendo com força), também pude me lembrar da essência de uma relação: cuidado, necessidade, troca, frutos (no caso do filme, os filhos). Entretanto, em uma sociedade em que as mulheres são taxadas ou como chatas ou como putas (em alguns casos, os dois), não é de se esperar que homens evitem o tema relacionamentos e que casar seja uma estupidez que, segundo alguns caras, seja cometida por pressão feminina, explicíta em camisas como GAME OVER com a foto de um casal (sim, em pleno século XXI), como se não fosse a mulher o animal mais violentado dentro dessa instituição.

O que nós precisamos, por incrível que pareça, é ler “Vagina” (da Naomi Wolf) ou, se quiser pular essa parte, respeitar a fisiologia do orgasmo feminino e experimentar uma sociedade em que as mulheres sejam felizes sexualmente. Por mais secretamente assustador que pareça, pra alguns homens, acabar com a dependência emocional e financeira das mulheres, todos ganharemos com isso, e talvez o assunto dos relacionamentos seja um tema mais leve e menos cercado de desencontros. Eu, pelo menos, continuarei debatendo sobre o tema — eu escolhi ser terapeuta, por sinal — mas não quero falar sobre relacionamentos, pelamor. Quero trocas intelectuais e profissionais; quero interlocução pra tocar meus projetos; quero incentivo; quero simplesmente estar perto sem falar nada. Eu e todas as mulheres somos muito maiores que as nossas relações.

a velha história de que mulheres fofocam se chama maior habilidade comunicativa ;)