Meias Verdades

Meu quarto anda meio bagunçado, minha cama meio vazia, meu coração meio partido. Eu ando meio distraída, a cabeça na lua e os olhos no chão, meus pés meio lentos, minha mãos meio inquietas. As coisas andam meio ruins, parecendo não dar certo, a vida anda meio má, fechando as brechas pra felicidade.
Os dias meio cinzas, a vontade meio escassa, o sorriso meio a meio… Meio tristeza, meio saudade. 
Meu cabelo meio despenteado, meus olhos meio caídos, a face de alguém que vive pelas metades. 
Já me cansei desses meios que não levam a caminho nenhum, tudo meia boca, tudo melancólico. De vazio em vazio meu copo se enche, e de metades meu coração se esvazia de novo. 
O som do silêncio ecoa nas paredes, como se todo o mundo estivesse calado, esperando eu soltar o folego há muito preso no peito. As cortinas balançam com o vento, num vai e vem que me embrulha o estômago. 
Eu me tornei a narradora e observadora da minha própria morte emocional, e meus dias são gastos aqui, meio que lendo esses livros e meio que ouvindo essas músicas. Não. Não são histórias ou canções tristes, são apenas algo pra desperdiçar o tempo que não desperdicei com você. E se nessa mala que você levou meus melhores CDs e nossas melhores lembranças podia ter me levado, ou apenas arrastado todo o meu tempo futuro sem você, para que eu não precisasse viver ele, viver essa meia vida. 
A noite com as estrelas opacas anda meio escura, a luz da lua meio apagada, um espelho desses olhos observadores meio marejados. 
A areia continua a cair da ampulheta, e o sono continua a não vir, eu continuo a ouvir as pessoas me dizendo para apenas esquecer, seguir em frente, ouvindo que não é possível voltar no tempo, para os dias de ouro. Mas as vezes eu fecho os olhos e sou capaz de ver novamente, como se estivesse lá, como se o tempo não fosse meio e fosse novamente meu. 
O livro termina, a música acaba, o silêncio domina esses estilhaços.
É minha narração e meu espaço, vistos de cima, contados em terceira pessoa, e eu sou a protagonista, e eu conto a história da metade que ficou para trás. E eu sou ela, e ela está em meios. Em meios cantos, meios restos, meios prantos, meias verdades. Essa garota que só vive metades quer se sentir cheia outra vez. Mas ela meio que desistiu da metade que restou.