Notas Sobre Mim

A areia que cai dessa ampulheta, o tempo que passa e se quebra, se estilhaça e se desperdiça. Os dias borrados, sem luz, mesmo com o sol brilhando através de uma peneira, meu espaço árido e vazio, um deserto perdido pelo mundo. Os pedaços se embaralham através da água na miragem, o vento sopra ao contrário e parece uma melodia errada, um disco virado. Mas é frio, e vazio.
Não é profundo, não é visível. É o que é.
Meu último dia, o último tic tac de um relógio que aos poucos deseja parar. Essas horas são ocas e fazem eco por toda a sala. Essas horas me matam, me preenchem. E tudo roda, o ponteiro enlouqueceu e foi embora, só eu. Só eu.
É abstrato e infinito, jogado pelo mundo nesse longo prazo. E as estrelas caminham, e correm, e se jogam umas nas outras. A validade anda caída e perdida, sem sentido, sem razão.
Onde está o meu tempo? Talvez o coelho da Alice ande por aí correndo com relógios no bolso e avisando sobre o fim do mundo. Devolva meus dias, volte aos meus anos. 
Me falaram que não posso voltar nesse tempo, que meus olhos não podem se fechar pra realidade. Mas quando faço isso, os mesmos são abertos pro passado, o mesmos sorriem marejados e sente a mesma saudade que meu peito sente. Aí eu escrevo, e me perco, e me penduro entre linhas. Abraçada com essa nostalgia, bem em meio aos meus devaneios guardados profundamente. Ninguém entende as palavras que digo, são pensamentos complexos demais para pessoas tão simples, são ideias profundas demais para mentes tão rasas.
Me perdoem, mas me cansei de ouvir que não somos capazes de usar todo o cérebro.Pode até ser que meu tempo não me permita usar, mas eu não me permito me limitar. Não quero terminar como o coelho, que corre contra o tempo e vive com o medo, usando apenas uma parcela do cérebro que lhe é permitida usar. Não por ser incapaz, mas por ser ignorante. 
Obrigada aos meus dias, por acabarem. E as minhas palavras por me registrarem e me eternizarem. Nem o vento é capaz de levar minhas cinzas, pois do pó vou me enraizar e das raízes vou perdurar. E então o que me restou se tornará areia nessa ampulheta, pois todo o tempo o meu tempo fui eu.