Carol Veiga
Jun 8 · 4 min read

Bocas Que Condenam

Recentemente mais uma minissérie americana ganha atenção e destaque em abordar o racismo do julgamento de homens e jovens negros e seu encarceramento arbitrário no sistema judiciário branco. O nome traduzido para o português dessa série é “Olhos Que Condenam” (“When They See Us”).

Resumindo um pouco sobre a minissérie (podendo conter spoiler), ela apresenta o julgamento de cinco jovens no ano de 1989 acusados de um estupro de uma mulher branca no Central Park . A promotora do caso, também uma mulher branca, insiste em seguir apenas uma linha de investigação, acusar os adolescentes negros que estavam zoando no parque na noite do estupro. Apesar de nenhuma prova ligar os adolescentes ao crime, os investigadores utilizaram as confissões contraditórias deles, das quais foram coagidos e até torturados a falar. Surge ainda uma prova material do DNA, que já apontava para outra pessoa desconhecida, além do local donde ocorrera a agressão ser outro de onde os meninos estariam dentro do parque, ainda assim com absolutamente nada que comprovasse o envolvimento deles, os meninos de 14 e 15 anos foram julgados culpados, tornando esse um dos casos famosos da época.

Através da dramaturgia a sensibilidade e empatia parece ganhar uma dimensão outra que diante do ocorrido não tiveram. Isso acontece porque o poder da narrativa se encontra na fala branca, se quem condena é uma mulher branca a prerrogativa da dúvida é quase descartada quando o alvo é então um homem negro. É bem verdade que a exposição da dor e injustiça sobre o negro se torna hoje uma pauta exploração lucrativa do racismo que sempre esteve presente, não por acaso temos vistos tanta arte envolvendo essa temática dos pretos enquanto eternas vítimas.

O vai me chamar a atenção nesses cenários é que mesmo com toda comoção em torno de uma falsa acusação sobre homens negros feito por pessoas brancas , alguns grupos da própria comunidade negra parecem que condenam junto, fazendo exatamente com que a narrativa branca continue ganhando poder diante de fatos controversos. Como pode haver uma crença fiel à justiça (branca) no sistema que foi exatamente criado para que sejamos sempre culpados e aniquilados?

Nesse mesmo momento que a serie ganha fama, ocorre também na mídia um caso de um famoso jogador de futebol brasileiro que vem sendo acusado por uma mulher branca de estupro, pego esse caso como exemplo que vem sendo discutido de forma exaustiva e chamo atenção sobre o posicionamento de determinado grupo de mulheres negras, que se inserem no feminismo negro. Estas optaram por sobrepor o gênero à raça e saindo em defesa de acusações duvidosas de uma mulher branca ao invés de confrontar as provas que tem sido apresentadas até o presente momento , que viria a por em queda cada narrativa diferente apresentada pela suposta vítima. Feminismo negro se torna responsável por ser mais uma boca que condenam homens pretos sem questionar, agindo de acordo com o que racismo tem por finalidade.

Voltando à minissérie, ela foi criada com base em fatos reais, e me faz questionar se as mesmas, feministas negras, que hoje optaram por defender em primeiro lugar a mulher branca , se não estariam elas também na época acusando os jovens em primeiro e reproduzindo que o homem negro é sempre opressor das mulheres e portanto tem mais é que se dar mal mesmo em tais situações? O que acham? Eu tendo a acreditar que seria assim porque é o comportamento e as falas que hoje venho escutado das mesmas no caso do jogador , que pode sim vir a ser real culpado , mas por elas já foi condenado mesmo havendo provas que contradizem as acusações.

As falas que saem de suas bocas condenam e julgam os homens negros como culpado sem que antes haja qualquer prova, são também mais uma vertente da reprodução do racismo que tem como propósito nos aniquilar. Vivemos em um país onde não podemos ser coniventes com esse olhar que já nos sentenciou só por sermos negros, passemos ao menos a tomar posse do discurso de modo a expor cada vertente do racismo que se encontra em falsa emancipação racial. E aqui, nesse cenário, o feminismo negro é uma dessas vertentes.

A série mostra ainda o pós cumprimento de pena, e as consequências na vida dos jovens, traumas , dificuldades de reinserção na sociedade entre outras barreiras do cotidiano, eles são culpados até que o sistema comandado por pessoas brancas digam que são. Se então resolvem dizer que não são , só então passam a não ser mais condenados . Se são eles que dão são eles que tiram, no discurso , na imagem, em tudo tem grande poder sobre nossos corpos. É nossa responsabilidade transforma-los a nosso favor para deixarmos de ser personagens com os papéis das vítimas deles.

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